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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"Agora que o clrão da luz se apaga", as crianças foram dormir o sono dos justos

Agora as crianças foram dormir. Graças a Deus, as cólicas de Thalita foram mais suaves hoje. Como é grande a vocação paterna. O Salmo de hoje (67) lembrava: "dos órfãos Ele é pai e das viúvas protetor; é assim o nosso Deus em sua santa habitação". Na mesma liturgia, São Paulo lembra que o mesmo Deus não nos deu um espírito de escravos, mas o Espírito que clama em nós "Abá, ó Pai!" Eis a verdadeira e pura oração, que brota de um coração puro...

Ester, ao clamar a Deus por seu povo, pedia chorando "vinde em socorro de minha orfandade" (Est 4,17)

Na paternidade, desempenhamos o papel que, por excelência e autoridade pertencem unicamente a Deus: "não chameis a ninguém de pai, porque um só é o Pai que está nos céus". É quase uma temeridade sermos chamados de pais. E é assim que nossos filhos aprendem a nos chamar.

Indigno dessa vocação, só uma maneira vejo a de encarar esse drama ontológico. Orar ao Pai. Reconhecer o Espírito que foi posto em nós, pela graça do Batismo e do Matrimônio. O Pai do céu nos outorga a capacidade de podermos absorver o que é unicamente dEle: as glórias e as penas do Pai. Por essa vocação, nossos filhos vão aprendendo que não são órfãos. Aprendem que uma pai, uma mãe, um Pai Eterno os ama. Uma vocação divina, dada a mim, a tantos de nós...

E ser pai não exige muito; na realidade exige tudo: um movimento descendente do corpo e da alma, até mesmo das nossas potências mais pueris, para mostrarmos aquilo que na sua simplicidade é de Deus.

Há pouco, lia para o meu filho (ele tem feito cada um de nós ler a Bíblia para ele todas as noites - é o Ofício de Vigílias dele) a passagem tão comovente dos lírios do campo e das aves do céu (Mt 6, 18 ss.). Fui trazendo ao meu coração a paternidade de Deus, que lembrando-se de seu Filho, a Sabedoria que é gerada por Ele desde toda a eternidade, constituiu essas imagens de sua imensa liberdade, na liberdade dos seres criados. O Filho, a Sabedoria, que brincava com elas desde o princípio, era  livre porque olhava para todos os bens com liberdade, de tal modo a jamais deixar que a possibilidade dos males do futuro viessem a tirar o olhar contemplativo sobre seu Pai.

Que grandiosidade a vocação de pai: lembrar aos nossos filhos de que foram feitos para a liberdade. Não são os condicionamentos do mundo que os constituirão. Mas uma paternidade cheia do olhar da paternidade de nosso Deus, o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tremo diante disso! Porque nem sempre meu olhar é esse olhar. Rogo a Deus que meu olhar aprenda no olhar para ele, e do cruzamento de olhares, nasça um olhar de liberdade em nossos filhos. E tendo os pais que têm possam apontar, como uma flecha apontada para o infinito alvo (lembrem-se da epectase), possam eles olharem para o Pai celeste com o olhar de Jesus. Essa é a hora em que diminuímos, e Ele cresce. Sim, como dizia Gibran, poeta libanês, "nossos filhos não são nossos filhos; são filhos do desejo da vida por si mesma".

Mas para além de minhas fraquezas, reafirmo minha serena certeza de quando falhar nessa pedagogia (que já é uma mistagogia), por causa de meu pecado, por causa de meu olhar nem sempre tão fixo em Cristo, o Pai celeste, que, em Cristo, atraiu tudo para si, ao ser levantado da terra, especialmente as crianças, não abandonará meus filhos, não abandonará nossas crianças, e será tudo neles.

Sim, porque o pedido de Ester foi escutado: Ele veio em socorro de nossa orfandade.

Termino a noite com as palavras de nossa música popular brasileira: "hoje eu quero paz de criança dormindo, quero o abandono de flores se abrindo para enfeitar a noite do meu bem", do Eterno Bem...

Boa e serena noite a todos!

sábado, 24 de outubro de 2009

E falando em epectase

Vejam esse comentário de São Gregório de Nissa à Vida de Moisés. É um comentário ao Evangelho de hoje (XXX Domingo Comum B - O cego Bartimeu, Mc 10,46-52), mas dá as noções do que seja a epectase cristã.

Um abraço a todos e Santo Domingo!

Dos escritos de São Gregório de Nissa, bispo.



«Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho»

[No Monte Sinai], Moisés disse ao Senhor: «Mostra-me a Tua glória». Deus respondeu-lhe: «Farei passar diante de ti toda a Minha bondade (...), mas tu não poderás ver a Minha face» (Ex 33, 18ss.).] Experimentar este desejo parece-me porvir de uma alma animada pelo amor à beleza essencial, uma alma a quem a esperança não pára de conduzir da beleza que já viu para aquela que está para além. [...] Este pedido audacioso, que ultrapassa os limites do desejo, almeja pela beleza que está para além do espelho, do reflexo, para a ver face a face. A voz divina satisfaz o pedido, recusando-o simultaneamente [...]: a magnanimidade de Deus concede-lhe a satisfação do desejo, mas, ao mesmo tempo, não lhe promete repouso nem saciedade. [...] É nisto que consiste a verdadeira visão de Deus: aquele que para Ele eleva os olhos nunca mais cessa de O desejar. É por isso que Ele diz: «não poderás ver a Minha face». [...]


O Senhor que tinha respondido a Moisés exprime-se da mesma forma aos Seus discípulos, clarificando o sentido desta simbologia. Ele diz «Se alguém quiser vir após Mim», (Lc 9, 23) e não: «Se alguém quiser ir à Minha frente». Ao que Lhe faz um pedido a respeito da vida eterna, propõe o mesmo: «Vem e segue-Me» (Lc 18, 22). Ora, aquele que segue caminha virado para as costas daquele que o guia. Portanto, o ensinamento que Moisés recebe sobre a maneira pela qual é possível ver a Deus é este: ver a Deus é segui-Lo para onde Ele conduzir. [...]


Com efeito, aquele que não conhece o caminho não pode viajar em segurança se não seguir o guia. Este precede-o, mostrando-lhe o caminho; por isso, quem o segue não se desviará do caminho se se mantiver virado para as costas daquele que o conduz. Com efeito, se se deixar ir ao lado ou de frente para o guia tomará uma via diferente da indicada. Por isso, Deus diz àquele a quem conduz: «Não poderás ver a Minha face», o que significa: «não olhes de frente o teu guia», porque, se assim fizesses, correrias num sentido que Lhe é contrário. [...] Como vês, é importante aprender a seguir a Deus: para aquele que assim O segue nenhuma contradição do mal se poderá opor ao seu caminhar.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

“De noite, mesmo de noite, iremos buscar a fonte. Só nossa sede nos guia. Só nossa sede nos guia.” (J. Berthier, de Taizé)

Meus caros, escrevi este texto há cerca de dois anos e achei oportuno pô-lo aqui hoje, junto com o texto logo abaixo, por causa de sua interpertinência. Espero que a leitura seja proveitosa.



Há alguns momentos na vida em que bate uma saudade danada de não sei o quê... Talvez já tenhamos todos passado por momentos assim. Uma sede que parece do tamanho do infinito nos invade e toma de assalto nossas almas de maneira a encher nossos corações de uma certa vacuidade.

E com essa saudade do infinito parece que várias outras saudades de coisas sensíveis, pessoas, situações vêm juntas. É quando parece acontecer de perceber o tamanho de nosso exílio e de nossa solidão. Mas esse abismo também pode fazer perceber várias e grandiosas dimensões de nossas almas ainda não percebidas, ao menos até aqui.

Nessa hora, nossas carências podem falar alto, deparamo-nos com nossas contradições interiores, com nossas relações quebradiças com o outro, conosco mesmos, com a vida, com o mundo, com Deus...

E no aparente vazio da existência, a tentação de fugir dele (ou daquilo que eventualmente o expõe) não é rara. E é muito comum se observar isso nas compensações tão comuns que trazemos nessas horas. Por exemplo, diversas compulsões como comer, beber, viajar, ter relações sexuais e comprar, que, em si, nada trazem de mal, muito pelo contrário, acabam sendo escapes de como tentar preencher esse vazio. Pode ser que essas coisas evitem de nos fazer chorar, de nos inquietar..., pelo menos por algum tempo.

Mas esse vazio é do tamanho do infinito. Os antigos hebreus perceberam isso muito bem quando chamaram o homem de “nefesh”. Essa palavra é traduzida como a alma humana pelos textos da Septuagenta, bíblia traduzida para o grego na diáspora dos judeus, mas surge de algo mais primitivo do que o conceito de alma: a garganta. A antiga visão hebraica percebia o homem como uma garganta escancarada para o alto, necessitada de alimento, de água, de saciedade. Uma garganta aberta para o infinito...



Diz o Salmo 62: “minha alma tem sede de ti, minha carne também te deseja, como terra sedenta e sem água”. E ainda, o 42: “assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente a minh’alma por ti, ó meu Deus!” É dessa sede que envolve o homem todo que estamos falando, uma sede que marca inclusive sua carne, ou seja, revela-lhe sua fragilidade, sua contingência. Que paradoxo: um desejo tão grande num ser tão frágil.

Nessa hora, lembro-me do canto de Taizé transcrito no início deste texto. “De noite, mesmo de noite...” Quem busca, fá-lo até quando escurece. Sim, porque é possível que não tenha sono, não sossegue, enquanto não encontrar o que busca. De noite... Lembram da esposa do Cântico dos Cânticos? É em meio à noite que ela sai em busca de seu amado. Levanta-se de seu leito e se dirige à cidade para o encontrar.

Parece-me importante olhar e contemplar com carinho esses momentos. Eles podem nos despertar de nossa letargia, tirar-nos daquela mediocridade que nos faz pensar que já chegamos ao cume da montanha. Entulhar essa garganta, esse recipiente seria uma tentativa de matar esse desejo, uma poluição da alma.

Nessa hora, o Senhor Jesus nos dirige uma palavra que nos orienta: “Vigiai!” A vigília é a atitude daquele que espera. Quando eu era mais jovem, minha mãe esperava até muito tarde quando não chegava logo em casa. Testemunho também que esperei nove meses pelo encontro dos corações meu e de minha esposa, antes de iniciar o namoro. Todas as mães esperam cerca de nove meses pelo filho que há de nascer. Só quem ama espera e deseja.

O conselho de que vigiemos vem, pois, como algo que quer despertar em nós o amor e, despertando-o, possa lançar alguma luz sobre o ponto de encontro desse amor. Se isso acontecer, é o próprio amor que dilata nossa alma e faz perceber algo mais daquele amor eterno que se manifesta desde toda a eternidade para dar sentido ao nosso sonho, nosso anelo.

Cristo também dirige uma palavra de relevante significado nesse contexto. “Se soubesses quem te diz ‘Dá-me de beber’, tu mesma pedirias de beber. (...) Em verdade, digo-te que, quem beber dessa água nunca mais terá sede”. Foi no encontro com a samaritana, próximo ao poço de Jacó. Mas o verdadeiro poço de Jacó é Cristo. Nele, encontramos a verdadeira água viva que jorra para a vida eterna.

“Nefesh” é uma palavra que também nos lembra “comer”. Quanto de nosso desejo não desperta ansiedade, vontade de devorar o mundo, uma impaciência danada... Às vezes, pode ser que nossas atitudes mais primitivas, mais animalescas surjam justamente aí. Pode ser que a morte de algum de nossos mais queridos proporcione o surgimento desses momentos. Pode ser que traumas de diversos matizes revelem essa dimensão desconhecida que parece contradizer nossos ideais, nossa formação moral, nossos conceitos e questione tudo o que somos ou que pensamos ser.

“Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna”. A catequese do evangelista João no discurso do Pão da Vida (capítulo 6 de seu evangelho) é claramente uma catequese eucarística. É necessário comer e beber do corpo e sangue de Cristo para encontrar a Vida..., mas não é suficiente. A atitude de quem deglute o Cristo para a Vida é a daquele que quer viver com Ele, por Ele e Nele. É a atitude eucarística, ou seja, da ação de graças. É a atitude de quem comeu e bebeu com Ele, “na NOITE em que ia ser entregue”, quando ele “tomou o pão em suas mãos, DEU GRAÇAS e o partiu, e o deu a seus discípulos dizendo: tomai todos e comei. Isto é o meu corpo que será entregue por vós”. A ação de graças suprema de Cristo Jesus se dá imediatamente antes de sua Paixão, na noite, na treva de sua vida, quando até o Pai parecia tê-lo abandonado e sua morte já se fazia inevitável.

Deu graças, não obstante o vazio. De fato, aí estão “as lições que melhor educam”. Na noite, dar graças, buscá-lo, mas na quietude de quem sabe que será encontrado antes de encontrar, mesmo que todas as instâncias deste mundo digam o contrário...
Sim, Senhor, porque buscar-te não é simplesmente humano, é sobre-humano, é divino, e sem te guardarmos no coração, sem carregarmos em nós as marcas com as quais nos marcaste, como te encontraremos? Viajaremos o universo inteiro e nosso vazio continuará. Por isso, Senhor, tu que tens o universo em tuas mãos, dá-nos a mansidão e a quietude de espírito para te buscarmos na serenidade de Cristo Jesus, sem O Qual nada podemos fazer. Sim, haverá uma inquietude que nos move, que nos arranca da mediocridade e da alienação do mistério da Vida, mas seja ela orientada pelo vento do Espírito Santo, que conduza nossas almas para o verdadeiro valor que preenche nossas vidas. Assim, nossa sede, de fato, nos guia a buscar a fonte, onde podemos beber e saber que estaremos vivos para todo o sempre. Amém!

"Na região dos gerasenos..."

Mais uma vez, hoje a Liturgia vem ser bálsamo para as nossas feridas, uma unção para nossos pensamentos, palavras e ações. Depois de atravessar o Mar da Galiléia e fazer cessar uma tempestade no meio do mar, Jesus chega a seu lado oposto: a região dos gerasenos ou gadarenos. Impressiona a imediatez com que dois homens lhe vêm ao encontro. Diz o texto de Mateus que eram muito violentos, possuídos pelo demônio.

Agora, abramos um parêntese, para observar o contexto desse início. O Evangelho de Mateus, tal como o conhecemos, foi escrito em grego, por volta do ano 80. Para esse ambiente, certa antropologia considerava que os deslizes do homem não eram provocados por ele, mas por entes invisíveis, mais potentes que o homem, chamados demônios. Ou seja, demônios, dentro desse contexto grego antigo, eram potestades capazes de orientar os atos humanos, muitas vezes à revelia de sua vontade. Tudo aquilo sobre o quê o homem era incapaz de governar em si e se manifestava de alguma forma era obra de demônios. Por exemplo, se um homem ficava nervoso e perdia o controle derramando sua fúria sobre alguém, não era ele quem estava agindo, mas um demônio, através dele. Essa condição era aquela na qual o homem estava sendo governado por um demônio.

Não se tratava de um ente bom ou mau, não havia até então uma identificação com Satanás ou, como tratam os catecismos de diversas épocas, com os seus séquitos. Eram potestades. Podia ser útil que uma potestade se pusesse em ação, por exemplo, na hora de prender um criminoso ou defender uma cidade. O fato é que eram entes invisíveis, mas não menos reais, e verdadeiros agentes pessoais, já que provocavam reações as mais diversas no homem.

É vivendo nesse contexto que os cristãos vão enxergar aí um espaço aberto para o senhorio de Cristo. Mateus, que, como outros apóstolos, se move pelo mundo grego, absorve essa forma de conhecimento antropológico. Na verdade, esse texto tem sua forma mais primitiva em Marcos, que segue sempre Pedro e escreve para os cristãos de Roma. Mateus, escrevendo para cristãos convertidos do judaísmo, assume esses elementos, já que os judeus estão espalhados por todo o mundo de influência da cultura helênica.

Mais tarde, a Tradição vai sistematizar o conhecimento acerca dos demônios. É só no século III que irá surgir uma orientação sistemática sobre eles. O responsável por ela é um monge, chamado Evágrio, da região do Ponto, Ásia Menor (por isso chamado Evágrio Pôntico). Este monge, nas suas lutas pessoais, num processo de grande observação interior (Evágrio passou por diversos processos de desordem interior em sua vida), pôde distinguir os demônios fundamentalmente em número de oito. São eles: gastrimargia (mais tarde chamada de gula), ira, luxúria, inveja, avareza, tristeza, acídia e vanglória. Para Evágrio, o homem natural era movido por essas potestades. Mais tarde, haurindo das fontes da tradição monástica, São Gregório Magno elaboraria um catecismo onde essas potestades são distribuídas em número de sete e passam a se chamar pecados capitais. A diferença é que tristeza e acídia são postas num mesmo contexto e passam a ser chamadas genericamente de preguiça. E assim, tornam-se difundidas por todo o mundo cristão.

Mas por que São Gregório passa a chamar de pecados aquilo que parecia tão conatural ao homem? Meus caros, tenham bem em mente que pecado não é uma ação, não é simplesmente uma puntual direção das capacidades humanas para o mal. Essas ações, esses direcionamentos são proporcionados por algo maior do que eles. Pois é! Se os demônios são grandes, há algo ainda maior do que eles! Na verdade, neste ponto, estamos falando precisamente do drama de toda a história da salvação: o homem é sedento, pura sede de plenitude, perenidade, deseja, busca sempre algo que lhe transcenda, que torne pleno de todo valor todo o seu corpo, sua alma, seus anseios, sua vida.O homem tem sede de Deus. Ser homem é ser sedento de Deus e de desejar estar com Ele, e de ser com Ele, ser nEle, ser UM com Ele. Numa palavra, o homem foi destinado para ser filho dEle. Vejam só: no Gênesis, a tentação que a serpente lhe incute sobre sua indecisão é: “sereis como deuses”. A serpente jogou muito sujo com o homem. Mexeu no seu ponto fraco...

Essa drama está justamente aí: foi buscando ser como Deus que o homem agiu assim. O que o homem não podia compreender é que não era sua pura e simples busca que assim o faria. E assim corria o risco de chamar de Deus aquilo que não era Deus, e declarar que toda a sua sede de plenitude poderia ser saciada por aquilo que não lhe podia saciar. Em suma, o homem viu uma imagem do alvo, um reflexo de sua centralidade, um ponto. Tomou o seu arco, pôs sua flecha e atirou, ..., e errou o alvo. Pois bem, aqui está o problema do pecado. A palavra grega é hamartya, que significa “errar o alvo”. O pecado está aí. O pecado nasce de uma sede de Deus, marcada pela opacidade de não poder enxergar o alvo de sua vida.

Agora, fica mais fácil entender o nexo que há entre os demônios, Satanás e o pecado. Vejam: a busca de Deus no homem natural aparece como presa de Satanás, ou, conforme os termos da Tradição, a antiga serpente, capaz de enganar, iludir. A serpente era símbolo do culto a Baal, deus-mito dos cananeus. Assim, o inimigo de Deus teve eleito como seu representante o representante do deus do povo inimigo do povo de Deus. A serpente falava aos demônios, os demônios falavam ao homem, e o homem cedia. Daí, o pecado originava pecados. Nesse contexto, os demônios passam a ser vistos como séqüitos da serpente, e os pecados como resultados da existência dos demônios em nós. Mais adiante, a teologia espiritual viu por bem, para fugir das armadilhas contidas nos significados das palavras, chamar os demônios de doenças espirituais. Assim caracterizaria a condição do homem natural: marcado pela incompletude ferida. É como um orgulho ferido, que precisa ser correspondido. Sobre elas e sua terapia, recomendo escutar todas as conferências sobre doenças espirituais, realizadas pelo Pe. Paulo Ricardo, da Arquidiocese de Cuiabá, no site: http://www.padrepauloricardo.org/ . Estão em mp3 e podem ser livremente baixadas e escutadas.

Visto isto, é importante dizer que, conforme a penetração do Evangelho nessa antropologia grega clássica, o homem natural é joguete dos demônios. Eles falam e ele atende. Eles mandam, ele obedece. Conforme a mesma antropologia, que também marcou a escrita dos catecismos ao longo dos séculos, e inclusive o Compêndio de Teologia Mística e Ascética, de Tanquerey, o que distingue um homem de um outro animal são três características: inteligência, vontade e coração (aqui significando subjetividade). No homem natural, as três estão sujeitas aos demônios. Em seu crescimento, o homem aprende, conforme essas faculdades, a falar aos demônios e eles ficarem em seus devidos lugares. Ao exercitar a vontade, a inteligência e os sentimentos, o homem se torna capaz de mandar nos demônios, e estes se tornam seus servos. O problema aqui é: pode ser que uma, apenas uma dessas faculdades seja cativada ou mesmo seqüestrada pela fala de um demônio, por seu discurso persuasivo, por suas ameaças. Nesse caso, essa faculdade, que tem o mesmo poder que as demais, irá entrar em conflito (Cf. Tg 4,1) com as demais e até mesmo sujeita-las. É a esse respeito que Jesus diz em outra passagem do Evangelho: “um demônio vem, encontra a casa em ordem, e traz mais sete demônios piores do que ele”, e ainda “não pequeis para que não te aconteça algo pior”.

O homem marcado pelo Espírito Santo, entretanto, carrega ainda em si uma outra faculdade. Esta não é dele, mas de Deus, dom de Cristo Ressuscitado aos seus discípulos. Uma palavra é dita, e desfaz a desordem das palavras, dos pensamentos instalados por dentro das faculdades humanas. Vejam bem: um demônio age por uma única palavra. Ela gera pensamentos, coações, seduções. Anuvia as capacidades de vontade, inteligência e sentimento. Pois bem, meus caros, é preciso que essa palavra seja respondida onde ela nasce, lá, diante do demônio. Não tenhamos medo dele! Não tenhamos medo de nós. Se cremos no Espírito Santo, Ele é capaz de responder com a devida medida aos nossos demônios. É preciso, entretanto, que vigiemos!

“Vigiai e orai a todo momento!, diz-nos Jesus. Esse processo da vigilância, do estar em perene dialogar com Deus em tudo o que fazemos, pensamos ou dizemos é o que possibilita que seu Espírito penetre nessas profundas cavernas de nosso ser e encontre as armadilhas e ameaças aí preparadas. Lembram do Evangelho de hoje, que citamos no começo do texto (Mt 8,28-34)? Jesus disse: “Ide!”, e os demônios se atiraram numa manda de porcos, ou seja, saíram do homem e foram agir em outro lugar. Jesus deixa a paz reinar nesse homem. Em outra passagem, um oficial romano vai dizer: “não sou digno de que entres em minha casa, mas diz uma palavra e serei salvo”! Vêem? Que palavra é essa?

São João da Cruz diz que Deus em toda a sua vida “pronunciou uma única palavra, e essa palavra é seu Verbo, gerado no silêncio, e apenas no silêncio haveria de ser escutada”. Vejam bem, meus caros: a Palavra é concebida no silêncio, lá onde somos nós mesmos, lá onde o presente delineia o futuro, lá onde o horizonte se abre e nos enche de esperança para que a vida aconteça valendo à pena. É preciso que encontremos a Palavra ali, no interior de nossa vida, nas suas reclamações, no interior de nós mesmos, no meio dos demônios, que se alimentam do nosso nada. Lá, ele diz: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus?” Da mesma forma, que a pronúncia da Palavra de Deus cria o universo do nada, essa mesma pronúncia nos recria sempre a partir de nosso nada! É essa pronúncia que nos torna filhos de Deus.

Na Santa Regra, Nosso Pai São Bento, parafraseando um Salmo 108 diz a seus filhos: “quando o maligno diabo tenta persuadi- lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo” (Prólogo, 28). Esse movimento de atirar os pensamentos na cruz sugere plasticamente mas com bastante precisão o papel do Espírito Santo na vida do cristão. É onde a Palavra de Deus é pronunciada e o demônio se cala. É ali onde nasce um homem novo.

Para tanto, meus caros, é preciso que Jesus, homem sem pecado (seria absurdo porque gerado dentro da própria natureza divina; Ele é, pois, o alvo!) entre em nossa vida, visite-a, como visitou aquela região inóspita. Afinal, que tem Ele a ver conosco? Que tem Ele a ver com nossas sepulturas, por meio das quais continuamos a andar, em lugares onde ninguém pode chegar perto, sob pena de haver uma violência? Que tem ele a ver com nossos demônios e nosso inferno? Diz São João Crisóstomo: “Jesus Cristo entrou no abismo conquistando os infernos. Naquele dia, ‘Ele despedaçou as portas de bronze, quebrou os ferrolhos de ferro’, como disse Isaías (Is 45,2)”. Esse é um trecho de sua homilia sobre a palavra “cemitério” e sobre a cruz. São João Crisóstomo se refere à descida à Mansão dos Mortos. Essa descida se deu hoje, no coração do endemoninhado de Gerasa, em meu coração, e em teu coração. Hoje, ele quebrou trancas de ferro, arrombou portas de bronze. Somos livres. E nossa liberdade consiste nisto: em escutá-lo, em transfigurarmo-nos conforme a moção do seu Espírito (Sopro, Voz) em nosso interior. Escutemo-lo, para não sermos mais joguetes dos demônios.

E rezemos com o salmista (Salmo 106):

– 10 Alguns jaziam em meio a trevas pavorosas, *
prisioneiros da miséria e das correntes,
– 11 por se terem revoltado contra Deus *
e desprezado os conselhos do Altíssimo.
– 12 Ele quebrou seus corações com o sofrimento; *
eles tombaram e ninguém veio ajudá-los!

– 13 Mas gritaram ao Senhor na aflição *
e Ele os libertou daquela angústia.
– 14 E os retirou daquelas trevas pavorosas, *
despedaçou suas correntes, seus grilhões.

– 15 Agradeçam ao Senhor por seu amor *
e por suas maravilhas entre os homens!
– 16 Porque ele arrombou portas de bronze *
e quebrou trancas de ferro das prisões!

– 17 Uns deliravam no caminho do pecado, *
sofrendo a conseqüência de seus crimes;
– 18 todo alimento era por eles rejeitado *
e da morte junto às portas, se encontravam.

– 19 Mas gritaram ao Senhor na aflição *
e Ele os libertou daquela angústia.
– 20 Enviou sua palavra e os curou *
e arrancou as suas vidas do sepulcro.

– 21 Agradeçam ao Senhor por seu amor *
e por suas maravilhas entre os homens!
– 22 Ofereçam sacrifícios de louvor *
e proclamem na alegria suas obras!

– Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo,*
Como era no princípio, agora e sempre. Amém!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A Epectase

Meus amigos,

depois de algum tempo de surgimento dos web logs, cedi à resistência e resolvi criar um deles. É simples, hospedado no blogspot, mas quer ser uma espaço para reflexão. Reflexão sobre a vida, talvez sobre seus problemas, certamente sobre seu respirar, comer e beber, mas não menos sobre nossos dramas mais abrangentes. Mas verdade seja dita, a gente não sabe mais respirar, comer ou beber. Que dirá acerca do que sabemos sobre alguma ciência de forma real?

Talvez seja um espaço onde poderemos rir um pouco, o ainda chorar. O importante é que riamos ou choremos juntos, para que tenhamos aquela solidão povoada que tanto inspirava São João da Cruz. Caso contrário, como nos conduz a nossa tão bem-aventurada ciência, a tão iluminada política e tão equilibrada economia de nossos tempos, teremos apenas uma solidão irremediável, que nos fecha em nossos próprios vazios. Mas se chorarmos ou sorrirmos juntos, poderemos fazer a experiência do Novo, da Beleza tão antiga e tão nova, que inquietava o coração de Santo Agostinho e todos nós. É porque quando estamos assim, quando choramos com os que choram e rimos com os que riem, carregamos os fardos uns dos outros e cumprimos a verdadeira Lei.

E sem querer usar meias palavras, ser politicamente correto não será um compromisso. Assim, entenda-se a que Lei me refiro. Essa Lei é capaz de crucificar o que consideramos correto e subverter nossos mais intrincados conceitos com relação a tudo. A própria palavra Deus será um vocábulo, que por vezes parecerá um balbucio, que, mesmo sendo Verdade e certeza, manifesta na carne humana, será sempre um Mistério por se alcançar, um Mistério ora brilhante como uma estrela, ora profundo e devorador como um buraco negro.

O interessante é que devido à sua densidade, os buracos negros atraem os corpos. E é inevitável que sejam atraídos, uma vez postos como pontos interiores ao lugar geométrico onde a atração de todos os outros corpos celestes jamais suplanta à deste misterioso ente físico. Alguns diriam do equilíbrio assintoticamente estável a que se dirigem os corpos sob a atração de um buraco negro.

Mas, de uma forma geral, os buracos negros são conhecidos pela maioria das pessoas, como algo misterioso, escuro, amedrontador. Existem diversas teorias físicas sobre o que acontece nesses corpos, inclusive sobre singulares comportamentos sobre massa, tempo e espaço neles. Não é objeto deste blog aprofundar sobre esses aspectos. O interesse está mais em penetrar no que é Mistério e nos atrai profundamente, até que, a partir de alguma circunstância que sabemos mais ou menos onde e como aconteceu, mas não tanto como um racionalista se arrisca a dizer categoricamente onde e como estão as coisas.

Mas quão belo é o sol e as outras estrelas. Eles também exercem atração sobre os planetas e determinam seu comportamento. Estes encontram sua órbita, sua razão de ser o que é, simplesmente pelo fato de a dita estrela existir e lançar sobre eles a medida própria de luz e calor. É por causa disso, que um girassol gira, que a água desce para o mar, sentimos calor ou frio ou um belo perfume se espalha no ar. Sim, se por potencial gravitacional, equilíbrio térmico ou processo difusivo, isso não apresenta nenhuma novidade perante os olhares da inocente criança. Apenas o fato de sentir frio e de ver a cachoeira se derramar para baixo extasia o olhar da criança, como poderia dizer Chesterton, mesmo aquela que ainda deve existir em nós, a mesma que Jesus acolheu em seu colo, lembrando aos adultos bem pensantes que aqueles que não fossem como ela não entrariam no Reino do Céu.

Até aqui, vocês devem estar se perguntando o que significa epectase e porque se transformou no nome deste web log. A palavra epectase me disse muito quando lia o melhor livro sobre Matrimônio que já pude ter em mãos, o Sacramento do Amor, de Pavel Evdokimov. A palavra vem do grego, epektásis, que lembra uma flecha num arco apontada para um alvo. Ela apresenta uma tendência e contradizê-la seria desprover a flecha daquilo que lhe seria mais próprio: atingir o alvo. A epectase, dentro da Tradição Cristã, é essa tendência irremediável, por assim dizer, para Aquele que é nosso Alvo, nossa Meta, nosso Fim. A epectase é o Mistério que carregamos e que como uma configuração de spin numa composição paramagnética nos torna ontologicamente atraídos e sempre tendentes Àquele que É.

São Paulo, Apóstolo, que a partir do próximo Domingo, durante 1 ano inteiro, será mais conhecido e meditado por ocasião do Ano Paulino, a ser aberto por S. S. Bento XVI, na Basílica Fora dos Muros dedicada ao Apóstolo, dá uma palavra importantíssima sobre o que podemos entender por epectase dentro da Tradição Cristã. Na Carta aos Filipenses, ele diz: "Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço, pois que já fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo que eu mesmo o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus" (Fl 3,11-14 - Tradução da Bíblia de Jerusalém). Eis aí a melhor apresentação do que seja a epectase cristã.

Queremos continua nela e convidamos a todos a descobrirem esse magnetismo místico em suas vidas. Espero que este blog seja um espaço para isso, para que "qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo" (Fl 3,16).

Sejam bem vindos e sintam-se abraçados, no calor daquele que nosso Alvo, nossa Meta!