quarta-feira, 18 de abril de 2012

Tempos de inconsistência

A concepção judaico-cristã sempre associou o termo glória ao peso, à densidade do impalpável, do eterno, do imorredouro. Sempre houve a glória intra-histórica, dedicada aos homens de valor, às autoridades ou figuras de respeito. Porém, o Ocidente, por uns séculos, buscou glorificar as realidades que merecem a glória, ou, antes, que a tem em si. E em função desta, glorificou, segundo uma ordem bem determinada, as referências que apontavam de alguma maneira para o eterno.

Porém, estamos em tempos de pulverização do impalpável, do eterno e do imorredouro, se é que é possível falar em pulverização de algo que, de per si, não pode ser quebrado. Quem se quebra é o homem. Sim, sua base é sua filosófica, seu conhecimento, sua sabedoria, enfim, seu Deus. Seu fundamento seria uma referência absoluta que o levasse a compreender o sentido que sua vida leva e a saudade que tem de algo que lhe transcende. Mas se o homem pulveriza o que há de criado a partir disso dentro de si (sim, há um Deus e uma imagem de Deus em si, há uma sabedoria eterna e uma sabedoria criada e, quando possível, desenvolvida, no homem, o conhecimento, as idéias, as relações, etc.), já não há mais possibilidade de verdade nele. Diz o Salmo 115, "todo homem é mentiroso, todo homem". Isso se torna radical aqui.

O espetáculo que assistimos hoje se deve a essa pulverização dos fundamentos do humano. As glórias são aparentes, as verdades já não são ditas, nem vividas. Estamos em tempos de inconsistência, de inanição interior. O colapso total é questão de tempo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sobre o abortamento como bandeira ideológica e outras práticas...

Sabemos, como sociedade formada e informada, que diversas ONG's nacionais e (sobretudo) internacionais fomentam a formação de grupos sistematicamente organizados para divulgar, defender e promover estas práticas no país. Entretanto, é publicamente conhecida a aversão da maioria da população brasileira a tais práticas.

É ainda conhecida a série de discussões filosóficas e científicas acerca do começo e do fim da vida. Gostaria de situar um pouco daquilo que honestamente posso observar acerca do conceito de vida. Desde quando o ser humano existe sobre a superfície terrestre, o desenvolvimento da civilização tem se mostrado nos momentos em que ele se nota um ser para os outros. De fato, o próprio surgimento daquilo que comumente se chama natureza, procede de acontecimentos fisicamente improváveis e decorre de uma série de fatores assim notados pelas ciências físicas que conferem um equilíbrio ainda não totalmente compreendido. Dentro da dinâmica do processo de desenvolvimento orgânico da assim chamada natureza, a própria irrupção do homem e sua permanência como ser a ela integrado é algo ainda mais improvável, procedente de um profundo exercício da vontade, da inteligência e dos sentimentos. Foram tais elementos que levaram o homem a uma verdadeira batalha, não diria contra a natureza, mas em profunda tensão com ela. As relações do homem com a natureza nem sempre foram das mais harmoniosas, mas houve, por longos e longos séculos, a compreensão de que essa tensão exigiria uma série de atitudes, que hoje, com a compreensão que temos, poderíamos chamar de sacrifícios.

De uma forma geral, a manifestação das propriedades dos elementos da natureza são uma maneira sacrifical de existir, onde aquilo que não era expresso, passa a ser expresso, nomeado e caracterizado pelo homem, em função de transformações as mais diversas, que viriam em favor de um devir. O que seria esse devir?

Não é difícil afirmar que estamos diante de um esforço para a preservação da espécie humana e de um cuidado especial para com a prole. Ou seja, ao longo do desenvolvimento orgânico da consciência humana sobre a superfície terrestre, esta apontou para o fato de que o homem provinha de um sacrifício e estava destinado a isso se quisesse ver a alegria de sua família, de seu clã e de sua nação. O desenvolvimento das civilizações se deu quando essa consciência estava aguçada e firmemente estabelecida  no seio da sociedade. Quando essa consciência se desligava desse fato, sérias inflexões ocorriam, como acontecera no Império Grego e no Império Romano.

O desenvolvimento da cultura, das ciências e das artes no Ocidente seguiu essa linha de ação e de consciência e a maioria das realidades que dizem respeito ao desenvolvimento científico e tecnológico de que hoje desfrutamos se deve a esse papel da civilização ocidental.

Com esses parágrafos, gostaria de afirmar primeiramente: o homem é uma realidade de sacrifício. Surgiu através de um, sua vida encontrará significado nas diversas entregas de sua história, até que venha, se assim permitido, expirar no sacrifício último de sua vida, tendo exalado nos seus últimos dias sabedoria para as gerações em função das quais este ser foi sacrificado do começo ao fim.

Porém, vemos aqui o homem sacrificado, mas ao redor dele, se assim podemos nos expressar, temos um jardim: uma juventude (seus filhos e netos) cheia de significado, encontrando nas diversas realidades aquela saudável tensão com a natureza e com seus pares; obras as mais diversas, seja nos serviços mais simples, seja no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, seja no atendimento a doentes e agonizantes, seja ainda na transmissão do conhecimento, seja enfim no envolvimento positivo em decisões políticas que levem seu país a se tornar um modelo de humanidade para todas as nações. O que brevemente quis expor aqui é que essa realidade sacrifical de onde o homem vem (gratuitamente, por meio de um ventre feminino) e para onde se destina (naturalmente, através de uma vida sábia) não permite, honestamente, dizer que a vida pertence a si.

Também não pertence à arbitrariedade dos Estados, como já se pode observar em certos países (que não demoram a entrar em colapso). Diria que a vida é algo maior do que o homem, que ela contém o homem, mas que este jamais pode dispôr dela. No sentido de que, quanto mais conhecemos algo acerca da vida, mais percebemos que temos muito a conhecer, uma conclusão natural deste fato é a de que a vida é um mistério. Definir a vida, esquadrinhar a vida, encapsulá-la ou, por fim, esquartejá-la é algo cujas consequências mais radicais podem não ser controláveis em médio prazo.

Quando afirmo isso, penso, por exemplo, no Império Romano, que, depois de períodos de pujante riqueza, mas de profundas arbitrariedades sobre a vida, sobre quem deveria viver ou não, começou a entrar em grande colapso, até o momento em que os bárbaros, vindos do norte da Europa, saquearam-no por completo, e este continente teve de conviver, pelo menos, 200 anos num universo de falta de sentido para o ser humano, e completa desagregação social. Poderíamos elencar algo de certos abusos que ocorreram quando membros do clero europeu, pelos idos dos 1400 aos 1600, também assim interpretaram certo domínio sobre a vida e mesmo as instituições eclesiásticas passar, por sérios colapsos entre os séculos XVI e XVIII. Porém, as mais horrendas manifestações de arbitrariedade encontraram suas expressões nos regimes nazi-fascistas e comunistas do século XX. Os primeiros, além de matar mais de 6 milhões de judeus, além de outros inimigos do regime, conseguiram energizar uma grande guerra em que outros tantos foram vítimas, num desejo insano de estabelecer uma hegemonia racial. Os outros, já desde a revolução bolchevique até as demais herdeiras, conseguiram destruir cerca de cem vezes mais vidas do que os regimes nazi-fascistas ou quaisquer outros. Bem, hoje vemos países extremamente pobres (como Cuba, Albânia ou Coréia do Norte) ou extremamente caros (como a própria Rússia) ou extremamente opressores (como a China).

Trocando em miúdos, independente da corrente que se siga, dispor da vida alheia é sempre um risco para a própria nação. Mesmo que um cidadão não venha a acreditar num devir após seu período de existência na terra, pode-se pensar num devir aqui. A idéia de dispor de vidas, decidindo-se sobre quem devia viver ou não, proveio não raras vezes da idéia de construir  uma vida com qualidade perfeita na superfície da terra. Até hoje, com tudo isso, não conheço nação que a tenha encontrado, pois, mesmo quando se chega a níveis máximos de IDH, o índice de suicídios (assistidos ou não) também os acompanha... Ao menos, assim acontece nos Flandres e na Escandinávia.

Fala-se, pois, do direito da mulher. Diz-se de que ela é dona do próprio corpo. Não entendo que seja, como eu, um homem, também não o sou. Ainda que fosse dona, um nascituro, um zigoto, um embrião, um feto, um bebê, não faz parte de seu corpo. É outro ser, traz em si todas as informações genéticas que o irão individuar. Mesmo que o corpo da mulher lhe pertencesse, a criança não lhe pertenceria.

A propósito, há pouco dizíamos algo sobre sacrifício. Há sacrifício que gera vida, que planta um verdadeiro jardim no universo; há também sacrifício que gera morte e desgraça. Como realizar um aborto e sentir-se com a consciência livre, capaz de juistificá-lo e até defendê-lo? A realidade observada é que a maioria das mulheres que o fazem, voluntariamente ou não, trazem uma marca terrível em sua consciência e prefeririam esquecer daquele momento de sua história. Mas isso é impossível.

Eu arriscaria responder à pergunta: somente quando há uma resoluta e inarredável decisão em afirmar, até onde é possível ao ser humano, que a vida pertence a si, ou seja, ele é maior do que a vida. Se é maior de que esse mistério, o que mais seria mistério? E o que mais seria inextricável e mesmo respeitável? Essa auto-afirmação seria o princípio do colapso civilizacional.

As instituições que, por outro lado, fomentam o infanticídio (igualmente a eutanásia) estão movidas por propósitos que estão além de minha compreensão, mas parece muito coerente com a prática vigente de só preservar aquilo que tem valor agregado a curto prazo. Crianças (a depender de como elas venham ou de como as mães fiquem) e idosos não são assim para tal lógica. E mais uma vez, decide-se sobre quem deve ou não viver.


sábado, 7 de abril de 2012

"Surréxit Christus, spes mea!" - "Ressurgiu minha esperança, Cristo!"


Queria dirigir a todos uma palavra sobre a hodierna Páscoa: 

"era necessário que o Cristo sofresse para assim entrar em sua glória". 

O caminho assumido por Deus para o nosso resgate foi o caminho em que acabamos caindo por causa de nossos pecados. Poderia ser outro, mas o quis assim para que tivéssemos como segui-lo. Foi um caminho humano, por excelência, carregando em si uma pedagogia que não nos anulasse, mas, ao contrário, levasse em consideração a nossa fraqueza e nossa condição desastrosa.
 
Mais ainda, foi o caminho em que assumiu Ele mesmo se anular, em certo e misterioso sentido, para percebermos algo da incomensurável nulidade, vacuidade, vaidade e caducidade que havia dentro de nós.
Creio, pois firmemente, hoje, nesta Páscoa de 2012, que foi ao deixar que Ele entrasse em minha vacuidade, murmurações, quedas, feridas abertas, tentações, angústias, lágrimas, dificuldades e provações as mais diversas, que pude experimentar mais um pouco da força de seu Mistério, de sua entrada neste mundo, em minha vida até a raiz, desvelando algo mais do livro selado de minha existência aos meus próprios olhos, aos olhos do coração, olhos da alma. Se não consegui segui-lo e ser fiel em tudo, Ele o sabe. Sabe-o mais do que eu, embora por essa radical entrada me desafie sempre mais a que eu mesmo o saiba e possa ser transformado por esse diálogo proporcionado por pura e graciosa iniciativa dEle, desde dentro do diálogo intratrinitário que acontece na eternidade. E quem, até mesmo entre os filósofos, poderia esperar tão grande Mistério, eles perscrutadores de tantos mistérios?

Não é à toa que posso hoje chamar a Cristo de meu, posso não porque o tomei, mas porque, de algum modo, Ele me tomou. Sua benevolência, sua (tão paradoxal) magnificência, sua paciência para comigo, ao carregar minha cruz, ao morrer onde morro e já não sou mais o eu sonhado pelo Pai do céu, o eu verdadeiro, e, no seu eterno vínculo com o Pai do céu, o Espírito Santo, me levar, de cativo ao alto (cf. Sl 67), pelo grandioso Mistério da Ressurreição, enche-me de santa esperança, e me leva cantar o Aleluia ao varar esta Noite que se inicia. Quando eu ver aquela lua cheia brilhando hoje, aquele círio aceso, as velas acesas em nossas mãos, poderei renovar a certeza de fé que me move para adiante em meio aos percalços da vida, aquilo mesmo que o discípulo amado diz no prólogo de seu Evangelho: "a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la". Sim, porque a luz tem mais direito que as trevas...

Poderei, ainda, ao ouvir o Exultet, o Santo Precônio desta noite, que os anjos cantam conosco e que as criaturas do céu e da terra estarão em uníssono e , ainda que em esperança, de esperança em esperança, podem sonhar com o Dia Eterno em que, para além do que podemos ver, ouvir, pensar, planejar, Cristo, imolado por nós, será tudo em todos.
Assim, e por isso, meu caro irmão, minha cara irmã, não pude resistir em expor aqui meus sentimentos às portas da Páscoa. Quero colocar cada um de vocês no Aleluia que sairá de meus lábios. Quiçá cantemos todos o Aleluia, porque eterna é a misericórdia, a caridade, o amor de Nosso Deus, manifesto em Nosso Senhor Jesus Cristo. De fato, Ele nos cativou, como lembrava uma das antífonas da tarde de ontem, Sexta-feira Santa, em alegre modo gregoriano VIII: “o fruto da vida nos atraiu”.

A Ele, Alfa e Omega, Princípio e Fim, a honra, a glória e o louvor, o poder e a salvação, ontem, hoje e sempre, por toda a eternidade, pelos séculos dos séculos. Amém!
E a você, meu caro irmão, minha cara irmã, o desejo, do fundo do coração, de uma Santa e Feliz Páscoa, nEle!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Rasgai o coração

Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia. Quem sabe? Talvez Ele mude de ideia e volte atrás, deixando, ao passar, alguma bênção, para oferenda e libação ao Senhor vosso Deus! 

Meus caros, iniciamos o Santo Tempo da Quaresma. Ontem, na Quarta-feira de Cinzas, chamou-me muita atenção a passagem da Profecia de Joel. Isaías, Jeremias e os Salmos já haviam manifestado que o sacrifício que agrada a Deus não é o sacrifício de substituição; somente a morte do homem repararia o dano do pecado. Porém, Deus também não deseja isso porque "se tivesse odiado suas obras não as teria criado". Misteriosamente, no tempo dos profetas pós-exílicos, Joel afirma a palavra acima grifada. E Deus foi fiel a ela.

Joel não sabia precisamente do que falava, mas ali estava prefigurado o Cristo, único sacrifício, única oferenda, única libação agradável ao Senhor, nosso Deus. Rasgar os corações, aqui, toma um sentido especialmente novo: é deixar-se penetrar pelos mesmo sentimentos de Cristo Jesus: ele se despiu de sua veste divina para assumir as idumentárias humanas, ou seja, carne, ossos, sangue, angústias, aflições, alegrias, amizades, enfim, uma história. Exatamente: o Eterno resplandeceu na história e se fez História. Assumindo a idumentária humana, sacrificou o que em si era próprio de Deus e revelou ao homem o que era inefável. Isso nos revelava o admirável intercâmbio de dons, para o qual nos interpela o Tempo da Quaresma, ou seja, deixarmos a idumentária humana para assumirmos a divina que nos foi confiada dese a Encarnação do Verbo, e manifesta plenamente na Cruz, quando até a idumentária humana de Cristo foi retirada, até a entrega do Espírito.

Rasgai o coração... as vestes do coração, para que se dilate e assuma em si a idumentária divina, aquela para a qual apontavam as vestes brancas do nosso Batismo.

Santa Quaresma!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Credulidade e Incredulidade

  • Um problema do nosso tempo é de uma bipolaridade espiritual, uma dualidade que só são duas faces da mesma moeda: a de acreditar em que qualquer realidade pode compensar a própria vida, e em simplesmente nada.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Verbo de Deus virá a nós

Dos Sermões de São Bernardo, abade

Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na primeira vinda o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Foi então, como ele próprio declara, que viram-no e não o quiseram receber. Na última, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10). A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o vêem em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira, o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória.
Esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação.
Mas, para que ninguém pense que é pura invenção o que dissemos sobre esta vinda intermediária, ouvi o próprio Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele (cf. Jo 14,23). Lê-se também noutro lugar: Quem teme a Deus, faz o bem (Eclo 15,1). Mas vejo que se diz algo mais sobre o que ama a Deus, porque guardará suas palavras. Onde devem ser guardadas? Sem dúvida alguma no coração, como diz o profeta: Conservei no coração vossas palavras, a fim de que eu não peque contra vós (Sl 118,11).
Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso.
Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas. Graças a essa vinda, como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste (1Cor 15,49). Assim como o primeiro Adão contagiou toda a humanidade e atingiu o homem todo, assim agora é preciso que Cristo seja o senhor do homem todo, porque ele o criou, redimiu e o glorificará.

3º Discurso para a novena do Natal - «Escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos»

Dos Sermões de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo

Deus fez-nos nascer depois da vinda do Messias: quantas acções de graças não Lhe devemos! Uma vez operada a redenção por Jesus Cristo, quão maiores são os benefícios que recebemos! Abraão, os patriarcas e os profetas desejaram ardentemente ver o Redentor, mas não tiveram essa felicidade. Eles cansaram por assim dizer o céu com os seus suspiros e as suas súplicas: «Céus, destilai lá das alturas o orvalho, e as nuvens façam chover o Justo! [...] Enviai o Cordeiro soberano da terra» (Is 45,8; 16,1 Vulg). [...] «Ele reinará nos nossos corações e nos livrará da escravatura na qual vivemos miseravelmente. Senhor, faz-nos ver a Tua bondade, e concede-nos a salvação» (Sl 84,8). Quer dizer: «Apressa-Te, Deus misericordioso, a derramar sobre nós a Tua ternura, enviando-nos o objecto principal das Tuas promessas, Aquele que nos virá salvar.» Foram estes os suspiros, foram estas as súplicas ardentes dos santos, antes da vinda do Messias; contudo eles foram privados durante quatro mil anos da felicidade de O ver nascer.


Esta felicidade estava-nos reservada a nós. Mas que fazemos? Que proveito tiramos dela? Sabemos amar este amoroso Redentor agora que Ele veio, que nos libertou das mãos dos nossos inimigos, que nos resgatou da morte eterna ao preço da Sua vida [...], que nos abriu o paraíso, que nos muniu de tantos sacramentos e de tantas ajudas poderosas para que O amemos e sirvamos em paz durante esta vida e nos alegremos para sempre na outra? [...] Minha alma, estarás realmente cheia de ingratidão se não amares o teu Deus, este Deus que quis ser enfaixado para te livrar das cadeias do inferno, pobre para te comunicar as Suas riquezas, fraco para te tornar forte contra os teus inimigos, oprimido pelo sofrimento e pela tristeza para lavar os teus pecados com as Suas lágrimas.

"Felizes os olhos que vêem o que estais a ver!" (Lc 10,23)

"Felizes os olhos que vêem o que estais a ver!" (Lc 10,23)

Ver o que o mundo não vê!

O Evangelho de hoje nos põe nesta esteira que nos leva ao Presépio, da mesma forma que nos leva ao Cristo glorioso do Fim dos Tempos, fazendo que já aqui e agora o vejamos, o contemplemos. A grande beatitude que Jesus declara hoje é de ver o que muitos desejaram ver e não viram. Com certeza (já meditamos sobre isso mês passado), haverá um dia em que todos verão, mas, para alguns, espero que para muito poucos, Deus deseja que para ninguém, esse dia será uma surpresa, virá, como diz Jesus no Evangelho, como um ladrão.

Ver hoje, com os olhos surpresos, admirados, cheios da certeza de eternidade do amor de Deus, aquela obra que Ele iniciou por seu Filho, em todas as circunstâncias em que vivemos, é já viver um pouco do céu. Tê-lo diante dos olhos do coração é tê-lo, sim, em esperança, mas já como uma Realidade presente que funda a todas e nos proporciona lançar um olhar com verdade para a Realidade.

Como é belo escutar o sonho dos antigos profetas... Vejam Isaías na leitura de hoje:

<<O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, e as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente. Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte, porque a terra está cheia de conhecimento do SENHOR, tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.>> (Is 11)É um sonho, uma visão, um desejo de paz. Ele pôde vislumbrar o dia em que se cumpriria a justiça do Senhor, onde a própria criação seria pacificada em todos os seus movimentos, por um único motivo: "a terra repleta do CONHECIMENTO DO SENHOR!" Essa terra, antes de ser o Universo inteiro (também o é!), é, antes de mais nada, o nosso coração, a nossa vida, a nossa história, pacificada pelo conhecimento do Senhor, pela nossa relação com Ele, pela nossa percepção de sua presença, mesmo na mais profundamente aparente ausência. É ver a beleza, onde tudo parece tão feio, ver a verdade falar por detrás das mentiras, sendo estas desmascaradas aos nossos olhos, ver a bondade em meio à crueldade de nossos tempos, ver a graça agir sobre nossos pecados.

E isso é dom de Deus. Na mesma passagem evangélica, Jesus diz, estremecido de alegria no Espírito Santo:

«Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.»

O coração simples, o olhar sempre voltado para um Todo-Outro, um Todo-Além de minhas expectativas, um Todo-Ser e Todo-Poderoso é que nos pode dar essa alegria no Espírito, a percepção de que os abismos e as montanhas de nossa existência estão todas sob o poder de Deus, através de seu Cristo.

Que nos dê o Pai a medida de nosso conhecimento dEle, pela ação de Cristo! Que o Natal seja para nós essa ocasião privilegiada de celebrar, depois dessas quatro semanas de Advento, essa alegria de ver em todas as obras o conhecimento e a Presença do Senhor. Aquele menino que aparecerá no Presépio contém em si toda a Sabedoria escondida, então revelada para a Vida do mundo.

Nosso Pai São Bento, no Capítulo VII da Santa Regra, lembra que o primeiro degrau da humildade é ter Deus sempre diante dos olhos. O salmista (Sl 110) concorda com ele: "Temer a Deus é o princípio do saber!" O princípio do saber, do conhecer do Senhor, é Tê-lo diante dos olhos de nosso coração. Pois bem, Jesus hoje exulta como um menino, um filho, o Filho, que se alegra com seu Pai, a quem conhece e ama. Alegremo-nos nEle e por Ele com o Dom do Pai, o Espírito Santo, unção de alegria para nós, "Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de conselho e de fortaleza, Espírito de ciência e de temor do SENHOR"! (cf. Is 11).

Um abraço a todos, compartilhando a alegria, que não é como as alegrias do natal do mundo, mas uma alegria, que para além de toda expectativa meramente humana, é esperança, penitência e vigilância na oração, que compreendem este privilegiado Tempo, porque revelam a Presença Viva, que reside no meio de nós. Como canta Pe. Fábio de Melo: "Enquanto espero a sua volta, eu volto aqui". Quem ama, espera, porque sabe da certeza do Amor que lhe transcende. A raposa do "Pequeno Prínicipe", de Antoine de Saint-Exupéry, disse que se o principezinho chegasse às cinco da tarde, às quatro, essa raposa estaria ansiosa, cheia de alegria, porque ele estava para chegar, porque ele a havia cativado. Isso é o que significa esperar na presença!!! É esperar sabendo que nosso coração já foi cativado e conquistado por Ele. A raposa diz sabiamente: "Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas". Que lição essa a da raposa!!! Esperar é permanecer, é estar aí, é já curtir a presença, vivenciá-la, voltar sempre, porque maravilhosa a nossos olhos, os olhos de nosso coração! Ele nos cativou, Ele se mostrou responsável por nós!!!

domingo, 27 de novembro de 2011

"Ah! Se rompesses os céus e descesses!"

Caros amigos e leitores,


entramos no Santo Tempo do Advento e no Ano Novo do Senhor de 2012. Retomo abaixo um texto que escrevi há 3 anos neste blog, comentário à I Leitura de hoje. Santo Advento a todos, Feliz 2012 e boa leitura:



"Ah! Se rompesses os céus e descesses! As montanhas se desmanchariam diante de ti. Desceste, pois, e as montanhas se derreteram. Nunca se ouviu dizer nem chegou aos ouvidos de ninguém, jamais olhos viram que um Deus, exceto tu, tenha feito tanto pelos que nele esperam." (Is 63,19b; 64, 2b-3)



Como são belos os sentimentos do santo autor!!! Com este texto, na Santa Missa de hoje, iniciamos o Santo Tempo do Advento, da preparação para a vinda do Senhor. Também com isso iniciamos o Ano do Senhor de 2009. Por isso, um santo ano novo a todos!

O texto é do século VI aC, depois do exílio de Babilônia. Faz parte dos escritos do chamado Trito-Isaías, um autor anônimo, que publicou seus textos sob a égide da Profeta Isaías, para que, tornando-se conhecidos, pudessem ser uma palavra de consolo e esperança a Israel. Aliás, é de esperança que esse tempo nos quer falar.

"Ah! Se os céus se abrissem!!!" Ah!, Senhor! Se eles se abrissem, poderíamos olhar para o alto e ver que nossa vida é tão mais do aquilo que podemos ver, apalpar, sentir, raciocinar, pesquisar, fazer... Ah! Senhor, se eles se abrissem, nosso horizonte se abriria, nosso coração se dilataria, nossa mente se tronaria humilde diante do grandioso mistério que se encontraria diante dela. Ah! Senhor, se os céus se abrissem!

Há tantos de nós e tanto dentro de nós que ainda desejam que os céus se abram, que uma esperança surja para eles, que seu pulmão respire um ar novo e fecundo de perenidade, que sua vida se preencha de realidades que não passam, porque tudo parece tão instável, tão confuso, tão injusto, tão mesquinho, dentro e fora de nós!!! Ah,se descesses! Que presente não seria. Já não mais precisaríamos enganar nossos filhos com a figura do Papai Noel, com a figura de um mundo que passa, que se estraga, que murcha, que se estraga! Já não precisaríamos pô-los na esteira da morte, que parece levar todos os homens nos seus hábitos que levam a defender o ego, os apegos, o lucro violentador, a injustiça, a violência, o abandono, a falta de paz!!! Tudo isso, Senhor, se eles se abrissem!

Há tantos de nós e tanto em nós que jamais se abre a esse céu!!! E isso é o que há de pior, Senhor, porque, nesse caso, não há perspectiva de esperança para nós, a não ser a própria destruição! Senhor, há tantos de nós e tanto em nós que só respira morte e apesar de, no mais profundo e íntimo do ser, surge, mesmo que abafado o grito: "Ah, Senhor! Se os céus se abrissem e descessem!"

Mas o Profeta hoje vem nos dar um alento, um sinal de esperança. Ele saiu de Babilônia e voltou a Jerusalém. Ela estava destruída, e isso o levava a gritar: "Ah, Senhor! Se os céus se abrissem e descessem!" Mas o Profeta não havia se prendido a isso. Ele, com seu povo, estava em Jerusalém. Canta o salmista: "quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar. Encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios de canções! Maravilhas fez conosco o Senhor! (Cf. Sl 125). Pois bem, o profeta também atrás: Sim, "desceste, pois, e as montanhas se derreteram diante de ti". Quem eram as montanhas? O poder de Babilônia. Ele se desmantelou, ele passou, ele foi destruído.

Em nós, as montanhas estão nos pecados mais enraizados no fundo do coração. São eles palavras interiores, comandos que nos põem na "rede que envolve todos os mortais". São eles que derramam para fora de nós o fel que anuvia a esperança e a paz. São eles que fazem adoecer a nossa vida, a nossa história, a nossa ciência, a nossa política, a nossa economia, a nossa paternidade, o nosso ensino, o nosso ser inteiro. São como nuvens tenebrosas que fecham o horizonte do nosso coração.

Ah! O profeta... ELe nem sabia do que estava falando. Era como uma parábola, uma metáfora para dar a conhecer o seu povo o teu poder. Mas desceste mesmo, desceste de verdade, desceste em carne e osso, e entraste em nossos infernos, em nossas montanhas escarpadas, que dificultam nosso caminhar. Viveste nossa história, tocaste em tudo, "encheste tudo de formosura" (Cf. São João da Cruz) e nosso olhar agora pode se abris, nosso coração se dilatar, nossa vida voltar a ter esperança, nosso horizonte poderá ser contemplado!!!

Sim, Senhor, desceste! Desce em nós, no mais profundo de nós e revira todas as lógicas que desgraçam o homem contra suas próprias contradições. Porque descestes em um inferno que ninguém talvez tenha descido e ressurgistes dos mortos, no seio do Pai. Diz Saõ Paulo, "Aquele que desceu é o mesmo que subiu!" Os céus se rasgaram, se escancararm, o próprio Pai celeste disse: "Tu és o meu Filho amado!" Ele disse isso mesmo a nós no dia de nosso Batismo. Por seu Verbo e Filho, continuamente vem dizer a nós: "tu és meu filho amado, eu te gerei, em ti ponho meu bem querer!" (Cf. Is 42,1; Sl 2,7).

Na expectativa de vossa vinda final, Senhor, te esperamos cada dia. Cada dia elevaremos o clamor do profeta: "Ah, Senhor! Se os céus se abrissem e descesses! Mas tu desceste, e as montanhas se derreteram diante de ti!" Pois cada dia tu mostras, revelas, que tu és tu mesmo que desces a nós: na Eucaristia, na vossa Palavra, nos irmãos, em nossa família, no meio de nossos colegas de trabalho, pelos amigos e inimigos, pelos irmãos carentes, no meio de nossa história pessoal e coletiva. Eis que vens vindo sempre, para que naquele Dia que só tu conheces, possamos ver-te face a face!

Hoje, Senhor, entregamos a ti, no início de um novo tempo, neste Advento, nossa esperança, para que o Natal seja para nós um momento de vigor tão grande que nossas esperanças tão menores possam ser transfiguradas em teu fogo de amor e tais como as montanhas que também passam, pois se tivermos fé, "poderemos dizer a uma montanha 'põe daqui para lá' e ela obedecerá". O problema é que nossa fé não chega ao tamanho de méson pi, e pede, suplica diante de ti que estejas sempre abrindo os céus para nós e sempre amplie nosso respirar, dilate nosso coração e revigore nossa esperança naquilo que pode e deve ser esperado, para além de todas as esperanças e desesperanças humanas, pelas quais passaremos até limpidamete enxergarmos vosso rosto.

Sim, Senhor, os céus se rasgaram e descesses! Quando vermos na manjedoura um Menino, ali estará o sinal de nossa esperança. Ele é tão frágil, tão pequeno, chora, sente frio, faz cocô, tem fome. Que sinal de contradição nossa esperança! Mas só nesse sinal nossas tão reais contradições podem encontrar um sentido e uma verdade que lhes diga respeito, que lhes dê uma lógica toda nova, ultrapassando todas as nossas lógicas iludidas, estultas e enlouquecidas!

Seja ele a nossa paz, que do que está dividido faz Um, porque Um é Ele com o Pai e o Espírito Santo! Que ao vê-lo no presépio possamos lembrar de que Ele vem, e Ele nos vê e contempla. Contemplemo-lo, com os olhos límpidos. Que se abram os céus de nosso coração para um Santo e Feliz Natal!!!