terça-feira, 3 de maio de 2011

Para o Domingo de Oitava da Páscoa

No último Domingo, celebramos a Oitava da Páscoa. Com grande alegria, oito dias depois de termos vivido a Noite Santa da Páscoa, continuamos, durante todos estes dias num só côro, num só coração: "Cristo ressuscitou! Aleluia! Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Alegremo-nos e nEle exultemos!"  Nesse Domingo, convidava-nos a Mãe Igreja, na antífona de entrada da Missa a agirmos como crianças recém-nascidas. Jesus disse, no Evangelho de Mateus, que quem não se tornasse como criança não entraria no Reino do Céu. Pois bem, diz-nos a Mãe-Igreja: "como crianças recém-nascidas desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação, Aleluia!" Quão belas e suaves essas palavras, que fazem lembrar a Bem-aventurada Ângela de Foligno, que, se colocando no seio da Trindade, unindo-se ao Cristo, que recebe eternamente do Pai a geração, ou seja, o Espírito Santo, sentia-se como uma criança recebendo da mãe o leite cálido do seu seio. lembra-me também Santa Teresinha do Menino Jesus, em sua infânia espiritual, que soube se deixar conduzir pela Vida com a qual Deus lhe conduzia. Tantos e tantos santos que, como diz a Oração Eucarística III, "na vida souberam amar Cristo e seus irmãos", deixando-se amamentar pelo puro leite espiritual, o Espírito Santo, para que crescessem na salvação e no amor de Deus. Também nós, Senhor, desejamos crescer na salvação. Não nos deixeis para que não sejamos tentados a levarmos a nossa vida num desejo de auto-salvação. Como a Tradição da Igreja diz há tantos séculos: "vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor; enviai o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da  terra.

Antífona da Entrada em Latim, no modo VI do canto gregoriano


É preciso "sermos como crianças para entrar para entrarmos no Reino dos Céus". No Evangelho, vemos Dez discípulos trancafiados, como se diz, com "as portas fechadas por medo dos judeus". É o Primeiro Dia, depois do Shabatt dos judeus. Há pouco haviam crucificado Aquele que Pedro havia declarado como sendo o Cristo, o Filho do Deus vivo. Estavam com medo, o mesmo medo da Sexta-feira da Paixão, que os levara a fugirem, negarem e traírem o Senhor da Glória. Estavam com medo, medo que não move, que estagna, que impede a ação, a decisão, medo que estaciona a vida, impede o testemunho e descentraliza a nossa existência. Em meio a esse medo, Jesus simplesmente entra, aparece e se põe no meio deles, dos medrosos apóstolos. E o quê Jesus lhes diz? "A paz esteja convosco". De que paz fala? Noutra passagem do mesmo Evangelho, que será ainda lida neste Tempo Pascal, Jesus vai dizer: "Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Porém, não vo-la dou como o mundo dá". Não se trata, pois, de uma paz adocicada, paz de trio elétrico, paz de beira-mar, paz de garantias no céu. Pura ilusão! A paz que eu procurava, Senhor, fugia da vossa cruz, assim como o messias que os discípulos procuravamapascentava apenas desejos terrenos. Não é dessa paz pré-transcendente que Jesus nos fala, nem a que ele deseja. Dessa paz, Jesus diz no Evangelho de Lucas: "eu não vim trazer a paz; vim trazer a espada". A paz que Cristo deseja aprofundo o Shalom hebraico às raízes mais profundas do desejo humano de plenitude. Na realidade, estamos em tempos de guerras, porque uma guerra muito pior, da qual estas são apenas uma fugaz imagem, se trava na profunidade da vida humana. Na aurora da humanidade, o homem conheceu o pecado e bebeu o amargor da sua morte. Como diz SãoPaulo na Carta aos Romanos: "o salário do pecado é a morte". O homem perdeu a paz, a harmonia, a inocência e a alegria. O que restam são pedaços impregnados de morte como a angústia de nossos dias, a solidão em meio aos lares e comunidades, o medo da vida, o medo de Deus. Mas é esse Deus que vem ao nosso encontro no deserto de nossos medos e nos diz:  "a paz esteja convosco!" É CRisto, o mesmo que fôra crucificado, que mostrando as mãos e o lado nos diz: "Vede: a fidelidade me conduziu até o madeiro, a uma morte cruenta, conduziu-me até o sumo derramamento de sangue. E eu estou aqui. O Pai me ama. Ele me diz: 'quero que tu vivas'. Vou proclamar o decreto do Senhor: 'Tu és meu Filho, eu hoje te gerei! Tu és príncipe desde o dia em que nasceste, na glória e esplendor da santidade; como orvalho antes da aurora eu te gerei!' (cf. Sl 2,7; 109,3) Ele me ama, por isso ressuscitou-me dos mortos. E como criança, passivamente, bebi o amargor de vossa morte. Porém, como criança, dormi nos braços de minha Mãe, mais ainda, de meu Pai, e bebi o pur leite espiritual, o Espírito Santo, a Vida eterna, que tinha antes de todos os séculos, e que o Pai me deu agora em plenitude humana e divina". Assim, e por isso, o Evangelho nos diz que "os discípulos se alegraram por verem o Senhor." Não era visão, não era sugestão. A única sugestão que tinham é de que ELe havia morrido, o óbvio, daí o medo dos judeus. Agora, Jesus deseja-lhes a paz e envia os discípulos.

Que aconteceu neste hoje? Os medrosos agora são enviados, e os Atos dos Apóstolos, que são lidos em todo o Tempo Pascal, nos revelam que os antigos medrosos irão até o fim anunciar perante o antigo Sinédrio, perante os gregos, perante todos os confins da terra, o Nome do Senhor Ressuscitado. E eis a obra: até hoje, no Espírito que os conduziu e sustentou, somos a Igreja de Deus, a Esposa de Cristo, as primícias da Jerusalém Celeste. Nascemos da Páscoa de CRisto. Ele hoje nos dá a paz e nos envia, não de qualquer modo, mas como o Pai o enviou. Como isto é destinado a nós, tão frágeis? Agora, lembro-me da vocação de Maria, anunciada pelo Anjo Gabriel. E ele, ela respondia: "como irá acontecer, se não conheço homem?" E o Anjo respondeu-lhe: "para Deus, nada é impossível". Sim, a mesma Sombra do Altíssimo que pairara sobre Maria e fecundara o seu ventre virgem agora nos é dada. Cristo diz a eles e, por eles, a nós: "recebei o Espírito Santo!" Sim, recebamos, como crianças recém-nascidas o puro leite espiritual para crescermos na salvação. Não desconfiemos nem desesperemos de Deus. ELe agora nos infunde, por Cristo, a sua Vida, o seu Amor, a sua Glória, a sua Plenitude, Aquele que impede que nossa vida seja entregue ao medo, à futilidade, ao pecado e à morte. É neste Espírito que somos batizados e nEle recebemos do Pai as mesmas palavras dirigidas ao Cristo nas águas do Jordão: "Tu és meu Filho amado, no qual eu me comprazo!" O Pai se alegra conosco, porque agora nos vê na mesma luz com a qual vê seu CRisto. Temos razão ao cantarmos: "meu coração me diz: o Amor me amou e se entregou por mim.. Jesus ressuscitou." Sim, o Amor me amou, o Amor nos amou, o Amor revelou sua face a todos aos quais destinou seu amor. É o fato de sermos amados que nos dá agora a coragem (cor-agere = ação do coração) para aceitarmos a missão, vivermo-la no meio do mundo, na Galiléia de nossa vida. É o fatode sermos infinitamente amados por Deus que nos impele a amar. Não é tanto um amor (frágil, permeado e adoecido pelo pecado) que nasce de nós, mas de Deus e passa, quano somos abertos, por nós, como que por canais que conduzem a esse puro leite espiritual para a salvação do mundo.



Como crianças! Como vivemos a vida de recém-nascidos? Olhemos para a aurora da humanidade. O Gênesis nos revela que o homem vivia em harmonia com todo ser criado. Escutamos os Atos dos Apóstolos o testemunho dos primeiros cristãos que receberam o Espírito: "eram perseverantes em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Viviam unidos e colocavam tudo em comum (...), conforme a necessidade de cada um." Porém, para nós, a frase central está no versículo 46 do capítulo 2: "diariamente, todos freqüentavam o templo, partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração." De que refeição nos fala, senão da Eucaristia? Era recebida e partilhada com alegria e simplicidade de coração. Talvez essa seja a receita para que vivamos a paz do Senhor Jesus. Por ela, podemos viver uma vida plenamente humana, plenamente cristã, viva, ou seja, para crescer na salvação. Tudo isso, conseqüência do amor de Deus. Como diz o Salmo Pascal 117: "pelo Senhor é que foi feito tudo isso, que maravilhas Ele fez a nossos olhos! Este é o Dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nEle exultemos!"

Por essa mesma razão é que São Pedro, na II Leitura, agradece a Deus "porque eterna é a sua misericórdia": "Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não se mancha, nem murcha, e que é reservada para vós, no céu". Eis a obra do Amor de Deus: destinou-nos à plenitude, com nosso corpo, nossa alma, nossa vida, nosso relacionamento, nosso trabalho... Enfim, com a Ressurreição do Senhor, a eternidade começa hoje para nós, porque o Pai acolhe as nossas opções profundas de vida no seu infinito Amor. A festa que assim celebramos com alegria nos convida a abandonar nossa vida nas mãos do Senhor, com suas vitórias e derrotas, alegrias e sofrimentos, com toda a intensidade de coração. Tomé talvez não tenha sido incrédulo tanto por não ter visto, mas por não confiar no alegre (a alegria agora é novidade!!!) testemunho dos outros apóstolos, na obra que o Senhor realizou neste Dia.

Dessa forma, São Pedro nos exorta, lembrando de que o Ressuscitado antes padecera a Cruz, que, embora a esperança, viva e incorruptível seja motivo de alegria para nós, talvez seja necessário ainda sofrermos as provações da vida para que a nossa fé seja acrisolada, purificada e seja ela, cada vez mais, sinal do amor que temos a Deus. Como ele mesmo diz para as trevas de nosso mundo: "sem ter visto Senhor, vós o amais. Sem over ainda, nEle credes. Isso será para vós motivo de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que credes: a vossa salvação!"

Foi-nos dado o Espírito Santo, que clama em nós: "Abbá!" Somente se assim nos dispusermos à ação do Espírito que nos torna como crianças diante de Deus. tornar-se-á possível o crescimento de sua obra.. Sim, Senhor, vós amastes a cada um de nós infinitamente e nese amor nos conduzis à salvação. Hoje, dai-nos viver este dia, esta Páscoa, esta Vida que nos destes na alegria e na simplicidade de crianças recém-nascidas. Dai-nos buscarmos a vós como o Cristo vos busca. Buscamo-Vos nEle, Palavra e Sacramento, Ação de Graças que se dá a vós na eternidade porque eterna é a vossa misericórdia.

A Ele, que convosco e o Espírito Santo, reina sobre todo o universo, a glória, o poder e a majestade, pelos séculos dos séculos. Amém!

Um comentário:

Joseane disse...

Nós sabemos a força do Espírito Santo de Deus, pois com Ele experimentamos que, verdadeiramente, para Deus nada é impossível! Parabéns pela sua profunda meditação. Beijos.