quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre o drama da homossexualidade e outros dramas hodiernos

E não é porque alguém não é homossexual que não pode inferir algo sobre algum assunto. Afinal de contas, um pode ser homossexual, outro pode ser irviolento, outro pode ser guloso, outro ainda depressivo e ainda desonesto ou ter uma outra dessas características. Ou seja, cada um tem seus dramas e sei que os homossexuais também têm os seus.

É no lidar com os próprios desequilíbrios (e isso todo homem tem) que o homem aprende a escutar os dos outros e perceber que há dramas associados a eles. Trata-se, entretanto, de observar a natureza e a essência dos seres e dar-se à verdade acerca dos mesmos, e não ficar sujeito a percepções subjetivas que só alimentam os sentidos. Aliás, o fenômeno da homossexualidade acontece unicamente dentro de uma sexualidade globalmente doente, o que também vale para certa heterossexualidade em questão. Perceba, pois, que minhas colocações sobre a homossexualidade não têm exatamente um foco apenas nela, mas na sexualidade como um todo. O problema é que a sexualidade de nossa cultura está toda doente, alimentada pelos anseios do mercado e das ideologias pós-jacobinianas, pós-marxistas e pós-niilistas, desembocando num relativismo cultural exacerbado e sem fronteiras, com apoio de uma mídia, de uma ONU e de governos por demais imbuídos dessas causas.

O problema é: posso fazer o que quero com meu corpo? Muitos aqui respondem sem pestanejar a essa questão. E as supracitadas instâncias sócio-políticas chancelam essa resposta. É o que chamamos de cultura do "politicamente correto". Mas a pergunta mais uma vez não quer calar: "posso fazer o que quero?"

A resposta reflete o quanto estamos reféns do corpo. E veja bem: não é alguém que não tem fantasias e exigências do corpo quem vos fala. Não se trata de não sentir essas coisas, seja com relação a alimento, sexo, atividade física, afetiva, etc. Não se trata de um platonismo que se mede no abandono do corpo, como se ele fosse uma prisão à alma.

Trata-se de uma subordinação necessária para que o homem encontre o seu Real: a subordinação do corpo (onde os fatos acontecem) à alma (onde as decisões acontecem). Caso o contrário se estabeleça, o homem já não é homem; é apenas um animal dotado de uma sub-razão. E o que é a sub-razão, senão a razão subordinada ao corpo. Pobre do homem: de nada lhe adianta ter uma razão assim. Seria melhor não tê-la ou mesmo ser um outro ser. Mas não é, e aí é que se encontra o problema e o desequilíbrio.

Mas e a razão? Seria dona de si mesma? Seria soberana de todas as decisões acerca do corpo? Pode ser que a razão se engane muitas vezes acerca das decisões a tomar acerca do corpo. Pode mesmo ser enganada por ele. A razão em absoluta soberania pode ser escrava de si mesma quando não da fantasia. Somente uma razão aberta e em relativa soberania é que pode seobreviver enquanto tal, sob pena de se degenerar. A razão só pode sê-la quando aberta ao Outro. Ou seja, há elementos externos que a razão necessita assimilar para ser o que foi destinada a ser.

Primeiramente, o outro está nos pais (= casal homem-mulher, objetivamente), naturais formadores da razão na criança. Mas os pais não são tudo. Há um momento em que a sociedade terá sua importância. Aí estarão a escola, a universidade, a religião, o ambiente de trabalho, a natureza. Mas isso também não é tudo. Há um momento na vida apartir do qual é necessário silenciar para que a razão assuma sua verdadeira maturidade. É verdade que para aprender algo com todas essas instâncias foi necessário silenciar e até mesmo obedecer para só depois perceber os efeitos de tal atitude. Por vezes, nossa vontade quis se impôr por causa de nosso medo de deixar de ser quem somos. Mas na realidade, só aprendemos a ser o que somos perante o outro, como diria Emanuel Lévians, ou melhor, perante o Outro.
E para que esse silêncio? Não se trata de ficar zanzando por entre as emoções, frustrações e carências de si próprio, embora também seja interesante escutá-las, mas elas ainda não têm o veredito.

Há um Nada em nós que precisa ser percebido. E ao sê-lo é que começa a aventura da maturidade. Há como que uma garganta do tamanho do universo aberta e esperando ser preenchida. Certamente esse sentimento já aconteceu quando a mãe negou uma bala na infância, ou quando uma mulher nos disse "não", ou ainda quando estivemos sem emprego ou não fomos compreendidos em nossa família ou comunidade. Mas agora já naõ se trataria de visões do Nada, mas o próprio Nada. O Nada que sou, o Nada que minha alma é, o Nada que ainda mais justamente é o meu corpo.

Essa foi, por exemplo, a compreensão de Buda ao ver aquelas imagens de um doente, de um velho e de um cadáver. Pois bem, penetrar no Nada é perceber que se é humano. Eis a Verdade sobre o homem: ele é Nada! E tudo o que seu corpo produz pode estar fadado a se dissolver em nada. Mas isso é uma visão terrivelmente desoladora. Não será por isso que nossa humanidade procura nas consolações do corpo a fuga do nada? Não será a doença da sexualidade ferida de nossos tempos um sinal de desespero? Não será o fenômeno hodierno da homossexualidade um sinal de que as próprias relações estão em crise? E assim, por diante, sexo sem prole, prole sem sexo, tudo à mercê do bel prazer do hipotálamo. Ao mesmo tempo, não será por isso que o Ocidente busca nas religiões orientais uma certa fala sobre o nada, sobre o Nirvana, que aliena dos deveres presentes, inclusive para com opróprio corpo, mas já aí distorcendo a mensagem de Buda?

Mas o nada... o nosso nada, apesar de necessário,... não é tudo. Por longos séculos, o Ocidente teve a oportunidade de aprender que nosso nada é amado. Não precisa ser explicado, não precisa ser esquadrinhado. Precisa ser assumido. Mas a capacidade do homem assumir seu nada é pequena. Nessa hora, ele está encurralado - tem de se entregar: ou ao desespero ou à fé. Pronto: agora o homem está diante de questões verdadeiramente fundamentais: ou se desespera e perde tudo o que pensava ter ou crê e entrega tudo o que ainda tem para recebê-lo ao cêntuplo...

A fé é a instância do jogar-se, de verdadeiramente abrir à razão a uma realidade que ela pode até conhecer, em certo sentido, mas jamais esuqadrinhá-la por si só. A fé, nessa hora, abre caminho para que a razão encontre seu verdadeiro sentido e mesmo seu agir honesto. Se se opta por isso, a razão agora há de se subordinar finalmente à fé.

É na fé que o homem encontra sua medida. Ele sabe que é nada, mas há agora uma diferença: seu nada é amado. E amado por quem? Por Deus? Seria assim que responderia o homem moderno? Talvez titubeasse muito em responder. Responderia facilmente que pode fazer o que quiser com o próprio corpo (na verdade, a essa altura, o corpo manda nele), mas nessa hora a resposta desaparece. Somente a fé responde. E fé é aprendida em comunidade, onde essa escuta se dá no aprendizado do amor que aí é derramado. E não é primeiramente nosso amor não. É o amor de Deus.

Mas vamos ao concreto disso tudo: o Ocidente aprendeu isso e deve tudo o que tem a uma cultura formada dentro dessa fé. Deus entrou na carne humana, assumiu nosso nada e se fez Nada. É na carne crucificada de Cristo que todas as nossas elucubrações sobre Deus se mostram pequenas, porque o aparente absurdo está ali. É exatamente o que muitos de nós afirma: não pode ser Deus ali. É justamente no aparente absurdo que se dá a graça. Cristo entra profundamente do Nada que ser humano algum deseja estar: o Nada da ausência de Deus. O homem não agüenta isso (sozinho!). ELe precisa de uma referência para continuar, mesmo que seja uma devoção, mesmo que seja uma idéia de Deus, mesmo que seja a razão fechada em si, mesmo que seja a natureza, mesmo que seja o corpo. Deixar tudo só é possível se o Impossível acontecer: Deus entrar na história de maneira radical e indelével.

Tudo isso é para dizer que nossa cultura, fechada sobre a razão e já mesmo sujeita ao corpo e suas fantasias perde seu sentido de ser, se não se abre ao Espírito, a um Sopro que não nos pertence, mas nos conhece e nos ama mais do que nós a nós mesmos. A doença da sexualidade, onde se encontra o hodierno fenômeno das ideologias de gênero (?!?), bem como de toda a nossa cultura está em não dar espaço a Ele.

É por essas e outras que a Igreja, desde seu fundamento, que é Cristo, passando pela sua doutrina, sua Tradição, seu magistério, seus membros hierárquicos até seu povo, simples cristãos, que no dia-a-dia procuram dar testemunho do Amor que gera e regenera o homem, não cessa de dizer isso: "é pela sua graça que somos salvos!" Só por Ele, somente com referência a Ele, encontramos a medida do homem e a cura. Pode ser que ainda a vida de cada um de nós esteja em processo de cura, mas a esperança é que a move, dia após dia.

Pérolas de Bento XVI (2) - O Discurso Escatológico de Jesus

Depois de lembrar das imagens apocalípticas que se seguem à destruição do Templo, Bento XVI nos lembra de que Jesus relativiza os acontecimentos cósmicos, centralizando-os na esfera pessoal:



" 'O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão' (Mc 13,31). A palavra é um quase-nada quando confrontada com o poder do universo material, é um sopro momentâneo na grandeza silenciosa do universo; pois bem, a palavra é mais real e duradoura do que todo o mundo material. É a realidade verdadeira e merecedora de confiança, o terreno firme sobre o qual podemos apoiar-nos e que permanece inclusive com o escurecimento do Sol e a queda do firmamento. Os elementos cósmicos passam; a palavra de Jesus é o verdadeiro 'firmamento' sob o qual o homem pode estar e permanecer."

Jesus: nosso céu, nosso único céu, nosso tudo, nosso mais que tudo.


Pérolas de Bento XVI (I) - sobre o zelo de Jesus no Templo

Na obra "Jesus de Nazaré", um fato essencial para a compreensão da mesma é o significado da expulsão dos vendilhões do Templo, sua purificação e posterior destruição. Tudo isso porque Jesus é o novo Templo que é instaurado pelo Pai, onde se oferece o único e verdadeiro sacrifício. Houve, na Teologia e na Exegese quem O identificasse com um zelota, movimento cuja origem concreta remonta a Matatias, no tempo da invasão selêucida, de Antíoco Epífanes, quando instaurou um culto idolátrico em Jerusalém.



Assim, "o termo 'zelo' (em grego: zelos) foi a palavra mestra para exprimir a disponibilidade de se empenhar pela força em favor de Israel por meio da violência."

"Jesus deveria ser colocado nesta linha do zelos segundo a tese de Eisler e de Brandon, tese esta que, nos anos 60, suscitou uma vaga de teologias políticas e teologias da revolução. Agora, como prova central dessa teoria, apresenta-se a purificação do templo, que teria sido evidentemente um ato de violência, porque sem violência não seria possível realizar-se, embora os evangelistas tenham procurado escondê-lo. A própria saudação dirigida a Jesus como filho de Davi e instaurador do Reino de Davi teria sido um ato político e a sua crucifixão por obra dos Romanos sob a acusação de "rei dos judeus" demonstraria plenamente que Ele fora um revolucionário - um zelota - e como tal fora justificado."

"Entretanto, foi-se acalmando a vaga das teologias da revolução que, com base num Jesus interpretado como zelota, tinham procurado legitimar a violência como meio para instaurar um mundo melhor: o ' Reino'. Os terríveis resultados de uma violência por motivos religiosos encontram-se, de modo bem drástico, diante dos olhos de todos nós. A violência não instaura o Reino de Deus, o reino do humanismo; pelo contrário, é um instrumento religioso preferido pelo anticristo, por mais motivada que possa ser no plano religioso-idealista. Não aproveita ao humanismo, mas sim à desumanidade".

(...)

"No justo sofredor, a recordação dos discípulos reconheceu Jesus: o zelo pela casa de Deus leva-O à Paixão, à Cruz. Esta é a reviravolta fundamental que Jesus deu ao tema do zelo. Transformou no zelo da cruz o "zelo" que queria servir a Deus através da violência. E assim erigiu definitivamente o critério para o verdadeiro zelo: o zelo do amor que se dá. Segundo este zelo é que o cristão se deve orientar; está aqui a resposta autêntica à questão sobre o zelotismo de Jesus."

sábado, 26 de março de 2011

Coragem, eu venci o mundo

Na parte superior do blog consta um ícone de São João Evangelista sobre o lado do Senhor. Bento XVI comenta essa passagem em seu novo livro "Jesus de Nazaré". Queria comentar brevemente, conforme foi lembrado há poucos dias, que coragem vem do latim cor agere, agir com o coração, algo que invade nossa vida profundamente e impulsiona para a meta, Cristo. Ele inicia tudo, Ele nos move, Ele é nosso Fim.

A coragem é componente intrínseca da epectase.

Jesus de Nazaré - Bento XVI

Caros amigos, tenho a alegria de poder já estar lendo o segundo volume desta grandiosa e belíssima obra, lançada no último dia 10, logo no início da Quaresma. Com isso, a seu tempo, irei postar alguns comentários a algumas passagens sublimes que já encontrei e assim reativamos o blog, nesta ”Entrada em Jerusalém até a Ressurreição”, e simultaneamente compartilharemos algo em preparação para a Santa Páscoa. Usarei os extratos do livro em sua edição portuguesa (Ed. Principia), já que no Brasil será lançado mais adiante, se Deus quiser.




Inicio com um comentário breve acerca do primeiro capítulo que trata da entrada de Jerusalém e da purificação do Templo. De fato, Jerusalém é o desejo de Jesus. Ele havia endurecido o rosto, de forma decidida, com o objetivo de chegar a Jerusalém. Jerusalém significa "visão de paz". É lá onde se celebravam as grandes festas judaicas, a Festa da Purificação, a Festa das Tendas, a Festa dos Ázimos e sobretudo a Festa da Páscoa. Todas elas são objeto de exploração teológica e meditação espiritual do Santo Padre. Também elas estão em íntima conexão com as palavras e os gestos de Jesus, no sentido de que, dando-lhe um novo olhar, um novo significado, prepara e soleniza sua entrega ritualizada nos Sacramentos de nossa fé católica.

O comentário a tecer é sobre o seguinte extrato, quando de sua entrada em Jerusalém. Os que vinham de Jericó, entrando na Cidade Santa veneravam aquele que tinha curado o cego como Messias, descendente de Davi, Rei de Israel, dizendo, entre tantos termos típicos, o vocábulo "Hosana!". Escreve o Santo Padre:

"Vejamos primeiro a exclamação 'Hosana!'. Originalmente. era uma expressão de súplica, como "Oh! Ajudai-nos!". No sétimo dia da Festa dos Tabernáculos, enquanto davam sete voltas em torno do altar do incenso, os sacerdotes repetiam-na de forma monótona, como súplica para terem chuva. Mas, dado que a Festa dos Tabernáculos se transformoude festa de súplica numa festa de alegria, a súplica foi se tornando cada vez mais uma exclamação de júbilo.

Provavelmente, no tempo de Jesus, a palavra já tinha assumido também um significado messiânico. Deste modo podemos reconhecer na exclamação 'Hosana!' uma expressão dos variados sentimentos quer dos peregrinos que foram com Jesus, quer dos seus discípulos: um jubilosos louvor a Deus no momento daquela entrada; a esperança de que tivesse chegado a hora do Messias e, ao mesmo tempo, uma súplica para que se realizasse de novo o Reino de Davi e, com ele, o reino de Deus sobre Israel."

Primeiramente a expressão 'Hosana!'. É uma expressão típica de quem espera, seja a de quem lamenta suas contingências, seja a de quem se alegra na ação histórica de Deus. O fato é que, no tempo de Jesus, a expressão tem caráter de esperança messiânica, algo que carrega em si um tom sóbrio e solene. Sóbrio porque Aquele Filho de Davi vem montado num jumento e não num cavalo, como seria de se esperar de grandes reis. Ele vem ainda de maneira velada, sob o aspecto de servo. Meditaremos essa entada no Domingo de Ramos. Baste para nós, por enquanto, o fato de sua sobriedade se dever a uma manifestação revelada até onde o Senhor o quis, mas velada para além de seus arcanos em tudo aquilo que nós, e mesmo os apóstolos e os demais discípulos, e, por assim dizer, o povo de Jerusalém com seus chefes políticos e religiosos, poderiam apreender.  Eis uma entrada misteriosa, solene, porque associada à entrada do Rei, porém assim mesmo cercada de Mistério porque Ele carrega algo que ainda não conhecemos em sua completude.

Para falar a verdade, a consciência que poderíamos ter a partir de uma tal visão é a de que palavras com 'Hosana' deveriam ser entoadas sempre no mais profundo senso de Mistério. Da mesma forma que a partir daquele momento de outrora dado em Jerusalém, a Entrada de Jesus em nossas fortalezas, em nossa história tão renitentemente resistente, é algo que se dá dentro de uma atmosfera mistérica. Cabe pronunciarmos essas palavras, ajoelharmo-nos e adorá-lO, em súplica em ação de graças.

Até breve! Uma Santa Quaresma para você, caro leitor!



sábado, 28 de agosto de 2010

Continuando a aproximar Jesus e as crianças - II

Agora, publicada no último dia 23 em ZENIt.org, as palavras do Cardeal Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, sobre a Primeira Comunhão às Criznças, relembrando as iniciativas dos sumos pontífices de São Pio X a Bento XVI.


Cardeal Cañizares: Jesus e as crianças
Há cem anos, Pio X antecipava a idade para a primeira comunhão
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 23 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – No contexto do centenário do decreto Quam singulari Christus amore (8 de agosto de 1910), de São Pio X – Papa que foi beatificado em 1951 e canonizado em 1954 –, publicamos a reflexão do prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cardeal Antonio Cañizares, apresentada em L'Osservatore Romano. Bento XVI discutiu esse tema na audiência geral de quarta-feira passada.
* * *
Completam-se agora cem anos da promulgação do decreto Quam singulari, do Papa São Pio X, pelo qual, seguindo fielmente os ensinamentos do Concílio IV de Latrão e os de  Trento, estabeleceu a primeira comunhão e primeira confissão das crianças à idade do uso de razão, quer dizer, em torno dos sete anos.
Esta disposição do santo Papa supunha um caminho muito importante na prática pastoral e na concepção habitual de então, que por razões diversas, tinha atrasado a idades posteriores este acontecimento tão transcendente para o homem.
Com este decreto, São Pio X, o grande Papa da piedade e da participação eucarística, com o desejo de renovação eclesial que inspirou seu pontificado, ensinou a toda Igreja o sentido, lugar, valor e centralidade da sagrada comunhão para a vida de todos os batizados, incluídas as crianças.
Com este gesto, ao mesmo tempo, destacava e recordava a todos o amor e a predileção de Jesus pelas crianças, que, além de fazer-se criança, manifestou seu amor por elas com gestos e palavras, até o ponto de dizer: “se não forem como as crianças, não entrarão no reino dos céus”; “deixai que as crianças venham a mim, não as impeçam, porque delas é o reino dos céus”. Elas são sempre amigas muito especiais do Senhor. 
Com a mesma predileção, com o mesmo olhar amoroso e com a mesma atenção e solicitude singular, a Igreja olha, atende, cuida e se preocupa com as crianças. Por isso, ela, como mãe amorosa, quer para seus filhos pequenos, os primeiro no reino de Deus, que, com as devidas disposições, participem logo do melhor e mais importante que Jesus nos deixou em sua memória: seu Corpo e seu Sangue, o Pão da vida. Pela sagrada comunhão, Jesus em pessoa, Filho de Deus, entra dentro da vida de quem o recebe e coloca sua morada nele. Não há maior amor, nem maior presente. Isso é um dom de amor que vale mais que todo o restante que se possa dar à vida de cada homem. Estar com o Senhor; que o Senhor esteja em nós, dentro de nós; que nos alimente e sacie; que nos tome pelas mãos e nos guie; que nos vivifique e permaneçamos fielmente em comunhão e amizade com ele: é sem dúvida o mais importante, o mais gratificante, o mais gozoso que pode acontecer a alguém.
Como atrasar, pois, às crianças, este encontro com Jesus, elas que são seus melhores amigos, as especialmente queridas por Deus, o Pai, objeto de especial cuidado da Igreja, mãe santa? 
A primeira comunhão das crianças é como o início de um caminho junto a Jesus, em comunhão com ele: o início de uma amizade destinada a durar e se fortalecer toda a vida com ele; começo de um caminho, porque com Jesus, unidos sem nos separar, procedemos bem e a vida se faz boa e virtuosa; com ele dentro de nós podemos ser sem dúvida pessoas melhores. Sua presença entre nós e conosco é luz, vida e pão no caminho. O encontro com Jesus é a força de que necessitamos para viver com alegria e esperança. Não podemos, atrasando a primeira comunhão, privar as crianças – a alma e o espírito das crianças – desta graça, obra e presença de Jesus, deste encontro de amizade com ele, desta participação singular do próprio Jesus e deste alimento do céu para poder amadurecer e chegar assim à plenitude.
Todos, especialmente as crianças, têm necessidade do Pão descido do céu, porque também a alma deve se nutrir e não bastam nossas conquistas, a ciência, as coisas técnicas, por muito importantes que sejam. Necessitamos de Cristo para crescer e amadurecer em nossas vidas. Isso é ainda mais importante neste tempo que vivemos e o é de modo especial para as crianças, frequentemente objeto, infelizmente, de manipulação e de destruição de sua grandeza, pureza, simplicidade, “santidade”, capacidade de Deus e de amor que as constitui. As crianças vivem imersas em mil dificuldades, envolvidas em um ambiente difícil que não lhes favorece ser o que Deus quer delas; muitas são vítimas da crise da família. Nesse clima ainda lhes é mais necessário o encontro, a amizade, a união com Jesus, sua presença e sua força. São, por sua alma limpa e aberta, as mais bem dispostas, sem dúvida, para isso.
O centenário do decreto Quam singulari é uma ocasião providencial para recordar e insistir no ato de receber a primeira comunhão quando as crianças tiverem a idade do uso de razão, que hoje, inclusive, parece se antecipar. Não é recomendável, por isso, a prática que se está introduzindo cada dia mais de atrasar a idade da primeira comunhão. Ao contrário, é ainda mais necessário o ato de adiantá-la. Perante tantas coisas que estão acontecendo com as crianças, e o ambiente tão adverso em que crescem, não as privemos do dom de Deus: este pode ser, é a garantia de seu desenvolvimento como filhos de Deus, engendrado pelos sacramentos da iniciação cristã no seio da santa mãe Igreja. A graça do dom de Deus é mais poderosa que nossas obras e que nossos planos e programas. Quando São Pio X adiantou a idade da primeira comunhão, também insistiu na necessidade de uma boa formação, de uma boa catequese. Hoje devemos acompanhar este ato de adiantar a idade com uma nova e vigorosa pastoral de iniciação cristã. As linhas marcadas pelo Catecismo da Igreja Católica e o Diretório geral para a catequese são guias imprescindíveis nesta nova pastoral ou renovada da iniciação cristã tão fundamental para o futuro da Igreja, a mãe que, com o auxílio da graça do espírito, engendra e amadurece seus filhos pelos sacramentos da iniciação, pela catequese, e por toda ação pastoral que acompanha. Assim, pois, não fechemos hoje nossos ouvidos às palavras de Jesus: “deixai que as crianças venham a mim, não as impeçam”. Ele quer estar nelas e com elas, porque “das crianças e dos que são como elas é o reino de Deus”.

Continuando a aproximar Jesus e as crianças - I

Pe. José Clécio é padre diocesano de Campos dos Goytacazes, RJ. Acompanho muito suas posições, seus esclarecimentos, e, exatamente num tempo em que faço muitos questionamentos sobre a Primeira Comunhão de meu filho (dado que "idade da razão" é um termo muito em aberto a abre diversos precedentes para que a consideremos cada vez mais precoce), este Rev. Pe. nos brinda com uma belíssima reflexão da qual compartilho em gênero, número e grau, e que, já estando em curso em nosso lar, deverá ser aplicada em breve, se Deus quiser.

Assim, seria interessante que lessem, refletissem e até compartilhassem comigo algo da experiência de vocês, antes e depois dessa leitura. Ela foi importada do blog do Rev. Pe., http://oblatvs.blogspot.com . Também em nosso blog, pouco mais abaixo, há algumas reflexões recentes que postei sobre paternidade e transmissão do Espírito, bastante coerentes ao contexto. 

Bem, sem mais delongas, segue o texto. Em continuação a ele, há um texto dos sacramentos ministrados pelos orientais e está no blog (http://oblatvs.blogspot.com/2010/08/uma-reflexao-pessoal-e-um-artigo-sobre.html). Boa leitura!
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Uma reflexão pessoal e um artigo sobre os sacramentos da iniciação

A prática atual tende a retardar sempre mais a primeira comunhão. Se prevalece a prática de administrá-la às crianças por volta dos dez anos, já encontrei quem o faça somente aos doze! Não falta boa intenção aos que pretendem incutir uma sólida formação cristã aos que vão receber o Sacramento, mas a prática ignora, a meu ver, aspectos importantes da questão.
A legislação em vigor estabelece que é dever dos pais ou responsáveis e do pároco que as crianças que atingiram o uso da razão sejam preparadas e, o quanto antesquam primum, admitidas à comunhão (cân. 914).
O cân. 913 esclarece que a preparação das crianças deve levar em consideração sua capacidade própria. Devem ser cuidadosamente preparadas de modo a adquirir um conhecimento suficiente do mistério de Cristo e a receber seu Corpo com fé e devoção (§ 1), embora in periculo mortis exija tão somente que possam discernir o Corpo de Cristo do alimento comum e recebam-no com reverência (§ 2).
Nossa contribuição, na condição de iniciadores, é dar o suficiente, o necessário e o próprio à idade daqueles que estão apenas começando a vida em Cristo. Não queiramos alçá-los à condição de Mestres em Israel. Tempo haverá, se fizermos bem nosso trabalho, para dar-lhes alimento mais sólido na medida em que crescem. Paradoxalmente, quanto mais tempo se exige de catequese menos coisas sólidas se ensinam às crianças. Certas aulas se afiguram exageradamente “infantis” mesmo às próprias crianças e, também por isto, muitas delas desistem de percorrer um tão longo caminho por tão pouco.
A excessiva ênfase na catequese prévia, que leva a postergar sempre mais a primeira comunhão das crianças, não deixa de exalar o mau odor protestante, este terrível espírito que tem contaminado o ambiente católico. Se retirarmos todas as conclusões de suas premissas chegaremos à prática herética dos protestantes e negaremos também o Batismo às crianças.
Parece haver, quando muito se insiste em tudo ensinar previamente, uma confissão de nossa incapacidade pastoral de oferecer às crianças, aos jovens e aos adultos uma catequese permanente, posterior aos sacramentos recebidos. Estamos como a dizer que se não vêm a nós a fim de progredir no conhecimento dos mistérios da fé, chantageamo-los com os sacramentos. Esta tem sido uma constante também no que diz respeito aos demais sacramentos: é curso para tudo e não demora exigiremos dos moribundos um curso prévio à recepção da Extrema Unção!
Outro fator desconsiderado é a capacidade das crianças de conhecer através de uma linguagem que não seja a verbal. Não raro demonstram uma intuição bem mais profunda dos mistérios de Deus que a de muitos adultos, ainda que não saibam exprimi-los em formas conceituais. O próprio Deus lhes fala à alma direta e compreensivelmente numa linguagem desconhecida aos que somos carnais. Curiosamente, nossas crianças demonstram hoje menos conhecimento suficiente e menos devoção que as de antigamente - e não culpemos os tempos. Lembro-me de muito pouco do dia de minha primeira comunhão, mas não me esqueço da posição das mãos, da comunhão de joelhos e na boca, do jejum eucarístico e da proibição de mastigar - estas prescrições simples incutiram em mim a consciência de que recebia algo sagrado e completamente distinto de um alimento comum.
Retardar a administração da Sagrada Comunhão às crianças, além do estabelecido pela Igreja, é privá-las de uma graça no momento em que o mal já se insinua com toda a sua força. Muitas crianças, pré-adolescentes como os chamamos, já se afastaram de Cristo e de sua Igreja naquela idade que alguns consideram ideal para a comunhão.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ainda sobre paternidade e maternidade - o testemunho dos santos - II

Agora, seguem os últimos momentos de Santa Mônica, celebrada hoje, narrados pelo seu filho, Santo Agostinho, no Livro IX de suas Confissões. Destaco (em grifos meus) o grande desejo dessa mãe, que, ora, poderia dizer com São Simeão, "deixai agora vossa serva ir em paz (...), pois meus olhos viram vossa salvação".

Ao aproximar se o dia em que ela ia partir desta vida – dia que Vós conhecíeis, mas nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios, que nos encontramos sozinhos, eu e ela, encostados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interior da casa que nos hospedava, em Óstia, onde, afastados das multidões, depois da fadiga de uma longa viagem, retemperávamos as forças, antes de embarcarmos. Conversávamos a sós muito suavemente e, esquecendo o passado e voltando-nos para o futuro, nos interrogávamos mutuamente, à luz da Verdade presente, que sois Vós, qual seria a vida eterna dos Santos, que nem os olhos viram nem os ouvidos escutaram nem jamais passou pelo pensamento do homem. Mas os nossos corações suspiravam pela corrente celeste, que brota da vossa fonte, a fonte de vida, que está em Vós.

(Interrompo aqui: veja qual o escopo da conversa entre essa mãe e esse filho. Como nos questiona!!! De quantas bugigangas nos ocupamos com nossos filhos, e nos esquecemos de prepará-los para o essencial... Que nossas coisas pequenas, nossos momentos com nossos filhos apontem para o essencial invisível aos olhos!!!)

Assim falava eu, embora não por este modo e por estas palavras; contudo bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis naquele dia em que assim conversávamos. Minha mãe acrescentou ainda: «Filho, quanto a mim, já nada me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, porque já nada espero deste mundo. Havia só uma razão pela qual eu desejava prolongar um pouco mais esta vida: ver-te cristão católico, antes de eu morrer. Deus concedeu-me esta graça de modo superabundante, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servires o Senhor. Que faço eu ainda aqui?».

Não me lembro bem do que lhe respondi a respeito destas palavras. Entretanto, passados cinco dias ou pouco mais, ela caiu de cama com febre. Num daqueles dias da sua doença, perdeu os sentidos e durante um curto espaço de tempo não dava acordo dos presentes. Acorremos logo e depressa recuperou os sentidos. Vendo-nos de pé, junto de si, a mim e ao meu irmão, disse-nos como quem procura alguma coisa: «Onde estava eu?».

Depois, vendo-nos atônitos de tristeza, disse: «Sepultareis aqui a vossa mãe». Eu estava calado e tentava conter as lágrimas. Meu irmão, porém, proferiu algumas palavras, mostrando a preferência de que ela não morresse em país estranho, mas na sua pátria.

Ouvindo isto, fixou nele um olhar cheio de angústia, censurando-o por pensar assim e, olhando depois para mim, disse: «Repara no que ele diz». E em seguida disse para ambos: «Sepultai este corpo em qualquer parte e não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejais». (Mais uma interrupção minha: de fato, a Pátria dela era outra. Era para isso que ela tinha preparado seus filhos!) Tendo feito esta recomendação com as palavras que pôde, calou-se. Entretanto agravava-se a enfermidade e o sofrimento prolongava-se.

Finalmente, no nono dia da sua doença, aos cinqüenta e seis anos de idade e no trigésimo terceiro da minha vida, aquela alma piedosa e santa libertou-se do corpo.

Ainda sobre paternidade e maternidade - o testemunho dos santos - I

Há poucos dias, conforme se pode ler logo abaixo, dizíamos algo sobre o papel da paternidade perante Deus. Gostaria de sublinhar o tetstemunhos de dois importantes santos celebrados esta semana. Aqui, o testemunho de São Luís, Rei da França, de como quis dirigir o olhar de seu filho para a dignidade do reinado do único Rei, Cristo. Ah! Se assim, fossem educados nossos filhos... Quantos outros tipos de políticos não haveríamos de ter. Sim, porque a transmissão do Espírito Santo pela via familiar, a via íntima, é algo que deixa marcas indelévis no coração do homem. Portanto, vamos ao testemunho de São Luís, em seu Testamento Espiritual (Acta Sanctorum, Agosto 5 [1868], 546) (Sec. XIII):

Filho caríssimo, eu te exorto, em primeiro lugar, a que ames o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com todas as tuas forças; sem isto não há salvação.

Filho, deves evitar tudo o que sabes ser ofensa a Deus, isto é, todo o pecado mortal, de tal modo que prefiras sofrer todos os tormentos do martírio a cometer um só pecado mortal.

Além disso, se o Senhor permitir que te sobrevenha alguma tribulação, deves suportá-la com generosidade e ação de graças, pensando que é para teu bem e que talvez a tenhas merecido. E se o Senhor te conceder alguma prosperidade, deves agradecer-Lhe humildemente, procurando que não te seja causa de ruína moral, ou por vanglória ou por qualquer outro motivo, porque seria iníquo valer-se dos dons de Deus para O combater ou ofender.

Assiste de boa vontade e com devoção ao culto divino; enquanto estiveres na igreja, evita a distração do teu olhar ou as palavras inúteis e reza devotamente ao Senhor com oração vocal ou mental.

Sê misericordioso para com os pobres, os infelizes e os aflitos e, segundo as tuas posses, ajuda-os e reconforta-os. Dá graças a Deus por todos os seus benefícios, a fim de seres digno de receber outros maiores. Sê justo para com os teus súditos, sem nunca te desviares da linha reta da justiça, nem para a direita nem para a esquerda; coloca-te sempre mais do lado do pobre que do rico, até averiguares com certeza de que lado está a verdade. Sê diligente em procurar que todos os teus súditos vivam em paz e justiça, sobretudo tratando-se de pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê dedicado e obediente para com a nossa mãe, a Igreja Romana, e para com o Sumo Pontífice, nosso pai espiritual. Esforça-te por erradicar do teu território toda a espécie de pecado, principalmente as blasfêmias e as heresias.

Filho caríssimo, para terminar, eu te dou toda a bênção que um pai piedoso pode dar a seu filho. A Santíssima Trindade e todos os Santos te guardem de todo o mal. O Senhor te conceda a graça de cumprires sempre a sua vontade, servindo-O e honrando-O de tal modo que depois desta vida todos nós possamos vê-l’O, amá-l’O e louvá-l’O sem fim. Amém.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas porque o Reino de Deus é dos que são como elas

O capítulo 10 do Livro de São Marcos é marcado por diversos matizes, principalmente acerca do Matrimônio, sacramento da fé, trazido à tona pelos valores perenes do Evangelho, onde Jesus remete ao Princípio, fonte da unidade e da indissolubilidade da família (sempre heterossexual, diga-se de passagem) nos planos de Deus. Sobre isso, muitos já falaram, e há diversos comentários em livros, revistas e na Internet. Cabe pormos em prática o amor esponsal entre Cristo e a Igreja nas nossas vidas conjugais, tais quais consagrações ao Senhor.

O que me chama a atenção no momento são as últimas palavras proferidas dentro desse contexto. Após o confronto de Jesus com os fariseus e a explicação de suas palavras aos discípulos, trouxeram-lhes algumas crianças para que Jesus, impondo-lhes as mãos, as abençoasse. Os discípulos as afastavam, mas Jesus lhes responde com a primeira frase deste texto, que se encontra nesse contexto do Evangelho de Marcos. Elas parecem tão simples, tão pouco evocadora, mas nos diz tanto!!!

Primeiro, porque a mesma palavra que se traduz por criança em aramaico (“talyia”) também se traduz como servo e cordeiro. Vejamos a intencionalidade do autor sagrado em trazer essas figuras à tona, lembrando do Servo Sofredor, imagem do crucificado no Livro do Profeta Isaías, e do Cordeiro de Deus, apontado por João Batista como aquele que tira o pecado do mundo, plenitude do cordeiro pascal expiatório da Páscoa judaica, como Páscoa para o mundo inteiro, em sua Paixão, Morte e Ressurreição. A criança, o servo e o cordeiro são os menos significativos da sociedade judaica de então, carregando em si o fardo das gerações. Mas Jesus os evoca como caminhos necessários para alcançar o Reino de Deus.

Desta feita, vamos ao segundo ponto: a criança é símbolo do caminho para o Reino de Deus. Visto sob o prisma do Sacramento do Matrimônio, a cujo contexto esse versículo pertence, podemos pensar nos filhos de um casal cristão. Eles são a expressão visível de que “já não são dois, mas uma só carne”. Pensando que todo ser humano surge a partir de uma união sexual de um homem com uma mulher, é como se a fragmentação da humanidade se desfizesse (ao menos, à maneira de primícias, um símbolo eficaz) na unificação de tal forma entre homem e mulher que ali dois pedaços se juntassem para não mais serem pedaços, mas um vaso, ou, ao menos, uma parte maior dele, e a expressão disso está no filho, pessoa única, indivisa, expressão do amor entre o pai e a mãe. Pensar num Matrimônio sem filhos e em filhos sem Matrimônio é alheio ao Evangelho de Cristo e a tudo que se possa dizer cristão.

Um comentário a esse respeito, eu gostaria de fazer lembrando de uma figura mitológica da tradição mística judaica. Após a criação, com o pecado original, o universo, todo uno, como seu Criador, quebrou-se, e o trabalho de toda a existência humana, e de Deus é o de juntar os cacos do vaso quebrado que se tornou o universo. A esse processo, os cabalistas chamam “tikkun”. Nós sabemos quem realiza a “tikkun”: Cristo morto e ressuscitado. No amor, no seu amor, aquele que se entrega pelo outro até a morte, aquele que pára no caminho, qual bom samaritano, para curar as feridas do moribundo e pagar todas as suas despesas de hospedagem enquanto se recupera. O Amor de Cristo é que se deixa ferir com todos os cacos pontiagudos para fazê-lo um só vaso. Esse Amor aponta para o Reino dos Céus.

Lembrado este aspecto, sigamos ao terceiro ponto: já que “não são dois, mas uma só carne”, e o que Deus uniu o homem não tem como separar, pressupõe-se que o amor humano, tão vacilante, tão cheio de hesitações, seria insuficiente para manter esses cacos grudados. O amor humano vai pensar apenas em justaposições. Elas serão importantes, mas só podem cumprir seu papel se as junções forem espaço de troca, de união, de renúncia à penetração invasiva do espaço do Outro, e ao mesmo tempo de permissão para que o Outro entre em nossa vida. Ora, muitas vezes, isso causa feridas, mas se se trata de feridas pelas quais optamos por amor, já não são mais feridas simplesmente, são marcas de amor, do Amor pascal de Cristo e da Igreja.

O quarto aspecto diz respeito às conseqüências desse diálogo ontológico: o vaso novo, que surge desse amor, a criança, não será somente um produto de uma relação sexual, puntual no tempo e no espaço. Será sempre a conseqüência de um processo de geração, onde o elemento gerador não são mais o pai ou a mãe, mas o Amor. O Amor de Cristo é quem nos gera a todos, especialmente quando esse amor é transmitido a nós desde a mais tenra infância. Quantas expressões existem para manifestar esse amor! A maior delas é a criança enxergar no coração de seus pais a existência de um Outro, O que transcende, O que marca as suas vidas com os sinais da Eternidade, sejam os sacramentos, seja o amor em família, o amor à Igreja, o serviço aos pobres, o carinho e a dedicação para com a criança, os ensinamentos, as correções..., enfim, o acolhimento em pessoa, que só o Cristo pode manifestar em nossas vidas. Assim, não negamos o Reino de Deus às crianças, mas apresentamo-las a Jesus e mostramos a elas o quanto é fascinante viver com Ele. Esse gesto possibilita que Jesus, que sempre respeita nossa liberdade, abrace nossos filhos, e eles já não sejam tão somente nossos filhos, mas filhos de Deus. É isso que os pais cristãos querem celebrar quando batizam suas crianças, quando lhes possibilitam a Primeira Comunhão (e todas as demais, a comunhão de vida inteira). “Deixai vir a mim as criancinhas”. É por elas, é sendo uma delas, é vivendo o carinho de Deus sendo uma delas, que alcançamos a felicidade, não obstante todas as vozes contrárias do mundo. Em certo sentido, a criança salva o mundo, pois o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo, e o Verbo, quando se fez carne, nasceu como criança, o Menino Jesus. Possibilitar o encontro da criança com Cristo, é possibilitar o encontro de nosso mundo com Cristo, em cada singularidade pueril, que representa um futuro pela frente. É, numa palavra, possibilitar o nosso encontro com Cristo. Nelas, nossa vida é, em certo sentido, reciclada, renovada, ressuscitada.

O quinto ponto, que se segue a este, é a visão do oposto. Vêem em que inferno nosso mundo se encontra? Uns dizem que é por falta de políticas públicas, outros dizem ser por faltas graves na educação, outros ainda falam ser por falta de emprego. Daí, a criança e o jovem entram na prostituição, no crime organizado, na droga e em toda sorte de maldições de nossa atualidade. Pudera! Não conheceram uma família de verdade (tendo os pais morado juntos ou não), não conheceram o amor, não conheceram o valor do corpo perante Deus e perante as responsabilidades da vida, não conheceram um valor significativo para a existência, não experimentaram a correção, o perdão, o carinho, o abraço, a harmonia, a oração, a pequenez de ser humano (e criança!), não sentiram, numa palavra, o que é viver. Queremos uma sociedade de homens e mulheres de verdade? Sejamos os primeiros a sê-lo com nossas crianças, ante a esperança e a perspectiva do Reino de Deus. Elas estão aqui para conhecê-lo e para nos fazê-lo conhecer, se que ainda não o conhecemos. Não é para outro fim, seja ele dinheiro, fama, prestígio ou boa-vida. Pode ser que algumas dessas coisas sejam meios importantes, mas elas estão aqui para ser.

O sexto ponto toca a questão delicada do aborto. Não preciso mais falar tanto sobre esse aspecto, já que o significado da criança já nos disse tanto e ainda dirá. Mas é importante dizer que, quem aborta perde a chance de ver florescer o Reino de Deus, perde a oportunidade de ver frutificar a esperança, mesmo contra toda esperança deste mundo. Quem aborta impede radicalmente o encontro com Cristo Jesus, Sentido e Razão de nosso viver. E quem vota em candidatos que defendem o aborto faz o mesmo.

Gostaria de encerrar esse breve ensaio, que vocês tiveram a paciência de ler, com o sétimo ponto: o papel da paternidade e da maternidade. São uma via ascética, um modo de buscar a conversão de nosso coração para o Amor, ante a responsabilidade assumida na presença de Deus, ante a presença do filho que exigirá um contínuo desdobramento de nossa vida, uma perene dilatação de nosso coração para o Amor de Cristo. Se, por um lado, é um caminho contemplativo, onde muitas vezes o silêncio será manifesto dentro de nós enquanto sendo uma contínua atenção à vontade de Deus e às exigências da geração (ver acima) do filho, sendo um contínuo esforço para que nossa família continue coesa no Amor de Cristo, que vence nossas hesitações e limitações, é por outro lado, o caminho para a “theósis”, a deificação, segundo a Tradição grega, ou seja, nele, situamo-nos no papel mais sublime que o homem pode ter: a participação na paternidade de Deus, único Pai, em essência. Ser pai é participar da paternidade do Pai. Lembram-se de Jesus quando disse: “não chameis a ninguém de pai, porque um só é o vosso Pai que está nos céus”? Pois bem, esse é o grande dom. Para o cristão, um filho só o chama de pai porque reconhece nele uma imagem do verdadeiro Pai, aquele que distribui os dons, de modo particular o Dom, o Espírito Santo, manifesto no Amor de Cristo. Assim, nossa paternidade é oração e contínua presença do Senhor em nossas vidas.

Dedico esse texto de modo particular aos nossos filhos, Gabriel José, tão saudoso e amado, que do seio do Pai intercede por nós, guarda-nos e guia-nos para que sejamos, eu e minha esposa, pai e mãe de verdade, Davi e Thalita, nossos filhos amados, a quem procuramos dedicar essa paternidade, como caminho de deificação para nós e para eles, para o futuro que se desdobra no Reino de Deus. Eles me inspiraram bastante acerca das palavras acima.