"Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus"
Do Livro sobre o Sacramento, de Santo Alberto Magno, bispo
Senhor, lavados e purificados no mais profundo de nós mesmos, vivificados pelo Teu Espírito Santo, saciados pela Tua Eucaristia, faz com que tenhamos parte na graça que tiveram os santos apóstolos e os discípulos, que receberam o sacramento das Tuas mãos. Desenvolve em nós a solicitude e a diligência para Te seguirmos como membros Teus (1Cor 12,27), para que sejamos dignos de receber de Ti o sentido e a experiência do Teu alimento espiritual. Desenvolve em nós o zelo de Pedro para destruirmos toda a vontade que seja contrária à Tua (Jo 18,10), esse zelo que Pedro concebeu durante a Ceia. [...] Desenvolve em nós a paz interior, a resolução e a alegria que foram saboreadas por São João, quando se inclinou sobre o Teu peito (Jo 13,25); que assim possamos usufruir da Tua sabedoria, que tomemos o gosto da Tua doçura, da Tua bondade. Desenvolve em nós a retidão da fé, uma esperança firme e uma caridade perfeita.
Pela intercessão de todos os santos apóstolos e de todos os Teus bem-aventurados discípulos, faz com que recebamos da Tua mão o sacramento, faz com que evitemos perseverantemente a traição de Judas, e inspira ao nosso espírito o que o Teu Espírito inspirou aos santos que estão já no céu, realizando em si mesmos a perfeição da beatitude. Concede-nos tudo isto, Tu que vives e reinas com o Pai na unidade do mesmo Espírito, desde antes de todo o começo e muito para além dos séculos. Amém.
No último Domingo, celebramos a Oitava da Páscoa. Com grande alegria, oito dias depois de termos vivido a Noite Santa da Páscoa, continuamos, durante todos estes dias num só côro, num só coração: "Cristo ressuscitou! Aleluia! Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Alegremo-nos e nEle exultemos!" Nesse Domingo, convidava-nos a Mãe Igreja, na antífona de entrada da Missa a agirmos como crianças recém-nascidas. Jesus disse, no Evangelho de Mateus, que quem não se tornasse como criança não entraria no Reino do Céu. Pois bem, diz-nos a Mãe-Igreja: "como crianças recém-nascidas desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação, Aleluia!" Quão belas e suaves essas palavras, que fazem lembrar a Bem-aventurada Ângela de Foligno, que, se colocando no seio da Trindade, unindo-se ao Cristo, que recebe eternamente do Pai a geração, ou seja, o Espírito Santo, sentia-se como uma criança recebendo da mãe o leite cálido do seu seio. lembra-me também Santa Teresinha do Menino Jesus, em sua infânia espiritual, que soube se deixar conduzir pela Vida com a qual Deus lhe conduzia. Tantos e tantos santos que, como diz a Oração Eucarística III, "na vida souberam amar Cristo e seus irmãos", deixando-se amamentar pelo puro leite espiritual, o Espírito Santo, para que crescessem na salvação e no amor de Deus. Também nós, Senhor, desejamos crescer na salvação. Não nos deixeis para que não sejamos tentados a levarmos a nossa vida num desejo de auto-salvação. Como a Tradição da Igreja diz há tantos séculos: "vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor; enviai o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra.
Antífona da Entrada em Latim, no modo VI do canto gregoriano
É preciso "sermos como crianças para entrar para entrarmos no Reino dos Céus". No Evangelho, vemos Dez discípulos trancafiados, como se diz, com "as portas fechadas por medo dos judeus". É o Primeiro Dia, depois do Shabatt dos judeus. Há pouco haviam crucificado Aquele que Pedro havia declarado como sendo o Cristo, o Filho do Deus vivo. Estavam com medo, o mesmo medo da Sexta-feira da Paixão, que os levara a fugirem, negarem e traírem o Senhor da Glória. Estavam com medo, medo que não move, que estagna, que impede a ação, a decisão, medo que estaciona a vida, impede o testemunho e descentraliza a nossa existência. Em meio a esse medo, Jesus simplesmente entra, aparece e se põe no meio deles, dos medrosos apóstolos. E o quê Jesus lhes diz? "A paz esteja convosco". De que paz fala? Noutra passagem do mesmo Evangelho, que será ainda lida neste Tempo Pascal, Jesus vai dizer: "Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. Porém, não vo-la dou como o mundo dá". Não se trata, pois, de uma paz adocicada, paz de trio elétrico, paz de beira-mar, paz de garantias no céu. Pura ilusão! A paz que eu procurava, Senhor, fugia da vossa cruz, assim como o messias que os discípulos procuravamapascentava apenas desejos terrenos. Não é dessa paz pré-transcendente que Jesus nos fala, nem a que ele deseja. Dessa paz, Jesus diz no Evangelho de Lucas: "eu não vim trazer a paz; vim trazer a espada". A paz que Cristo deseja aprofundo o Shalom hebraico às raízes mais profundas do desejo humano de plenitude. Na realidade, estamos em tempos de guerras, porque uma guerra muito pior, da qual estas são apenas uma fugaz imagem, se trava na profunidade da vida humana. Na aurora da humanidade, o homem conheceu o pecado e bebeu o amargor da sua morte. Como diz SãoPaulo na Carta aos Romanos: "o salário do pecado é a morte". O homem perdeu a paz, a harmonia, a inocência e a alegria. O que restam são pedaços impregnados de morte como a angústia de nossos dias, a solidão em meio aos lares e comunidades, o medo da vida, o medo de Deus. Mas é esse Deus que vem ao nosso encontro no deserto de nossos medos e nos diz: "a paz esteja convosco!" É CRisto, o mesmo que fôra crucificado, que mostrando as mãos e o lado nos diz: "Vede: a fidelidade me conduziu até o madeiro, a uma morte cruenta, conduziu-me até o sumo derramamento de sangue. E eu estou aqui. O Pai me ama. Ele me diz: 'quero que tu vivas'. Vou proclamar o decreto do Senhor: 'Tu és meu Filho, eu hoje te gerei! Tu és príncipe desde o dia em que nasceste, na glória e esplendor da santidade; como orvalho antes da aurora eu te gerei!' (cf. Sl 2,7; 109,3) Ele me ama, por isso ressuscitou-me dos mortos. E como criança, passivamente, bebi o amargor de vossa morte. Porém, como criança, dormi nos braços de minha Mãe, mais ainda, de meu Pai, e bebi o pur leite espiritual, o Espírito Santo, a Vida eterna, que tinha antes de todos os séculos, e que o Pai me deu agora em plenitude humana e divina". Assim, e por isso, o Evangelho nos diz que "os discípulos se alegraram por verem o Senhor." Não era visão, não era sugestão. A única sugestão que tinham é de que ELe havia morrido, o óbvio, daí o medo dos judeus. Agora, Jesus deseja-lhes a paz e envia os discípulos.
Que aconteceu neste hoje? Os medrosos agora são enviados, e os Atos dos Apóstolos, que são lidos em todo o Tempo Pascal, nos revelam que os antigos medrosos irão até o fim anunciar perante o antigo Sinédrio, perante os gregos, perante todos os confins da terra, o Nome do Senhor Ressuscitado. E eis a obra: até hoje, no Espírito que os conduziu e sustentou, somos a Igreja de Deus, a Esposa de Cristo, as primícias da Jerusalém Celeste. Nascemos da Páscoa de CRisto. Ele hoje nos dá a paz e nos envia, não de qualquer modo, mas como o Pai o enviou. Como isto é destinado a nós, tão frágeis? Agora, lembro-me da vocação de Maria, anunciada pelo Anjo Gabriel. E ele, ela respondia: "como irá acontecer, se não conheço homem?" E o Anjo respondeu-lhe: "para Deus, nada é impossível". Sim, a mesma Sombra do Altíssimo que pairara sobre Maria e fecundara o seu ventre virgem agora nos é dada. Cristo diz a eles e, por eles, a nós: "recebei o Espírito Santo!" Sim, recebamos, como crianças recém-nascidas o puro leite espiritual para crescermos na salvação. Não desconfiemos nem desesperemos de Deus. ELe agora nos infunde, por Cristo, a sua Vida, o seu Amor, a sua Glória, a sua Plenitude, Aquele que impede que nossa vida seja entregue ao medo, à futilidade, ao pecado e à morte. É neste Espírito que somos batizados e nEle recebemos do Pai as mesmas palavras dirigidas ao Cristo nas águas do Jordão: "Tu és meu Filho amado, no qual eu me comprazo!" O Pai se alegra conosco, porque agora nos vê na mesma luz com a qual vê seu CRisto. Temos razão ao cantarmos: "meu coração me diz: o Amor me amou e se entregou por mim.. Jesus ressuscitou." Sim, o Amor me amou, o Amor nos amou, o Amor revelou sua face a todos aos quais destinou seu amor. É o fato de sermos amados que nos dá agora a coragem (cor-agere = ação do coração) para aceitarmos a missão, vivermo-la no meio do mundo, na Galiléia de nossa vida. É o fatode sermos infinitamente amados por Deus que nos impele a amar. Não é tanto um amor (frágil, permeado e adoecido pelo pecado) que nasce de nós, mas de Deus e passa, quano somos abertos, por nós, como que por canais que conduzem a esse puro leite espiritual para a salvação do mundo.
Como crianças! Como vivemos a vida de recém-nascidos? Olhemos para a aurora da humanidade. O Gênesis nos revela que o homem vivia em harmonia com todo ser criado. Escutamos os Atos dos Apóstolos o testemunho dos primeiros cristãos que receberam o Espírito: "eram perseverantes em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Viviam unidos e colocavam tudo em comum (...), conforme a necessidade de cada um." Porém, para nós, a frase central está no versículo 46 do capítulo 2: "diariamente, todos freqüentavam o templo, partiam o pão pelas casas e, unidos, tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração." De que refeição nos fala, senão da Eucaristia? Era recebida e partilhada com alegria e simplicidade de coração. Talvez essa seja a receita para que vivamos a paz do Senhor Jesus. Por ela, podemos viver uma vida plenamente humana, plenamente cristã, viva, ou seja, para crescer na salvação. Tudo isso, conseqüência do amor de Deus. Como diz o Salmo Pascal 117: "pelo Senhor é que foi feito tudo isso, que maravilhas Ele fez a nossos olhos! Este é o Dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nEle exultemos!"
Por essa mesma razão é que São Pedro, na II Leitura, agradece a Deus "porque eterna é a sua misericórdia": "Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não se mancha, nem murcha, e que é reservada para vós, no céu". Eis a obra do Amor de Deus: destinou-nos à plenitude, com nosso corpo, nossa alma, nossa vida, nosso relacionamento, nosso trabalho... Enfim, com a Ressurreição do Senhor, a eternidade começa hoje para nós, porque o Pai acolhe as nossas opções profundas de vida no seu infinito Amor. A festa que assim celebramos com alegria nos convida a abandonar nossa vida nas mãos do Senhor, com suas vitórias e derrotas, alegrias e sofrimentos, com toda a intensidade de coração. Tomé talvez não tenha sido incrédulo tanto por não ter visto, mas por não confiar no alegre (a alegria agora é novidade!!!) testemunho dos outros apóstolos, na obra que o Senhor realizou neste Dia.
Dessa forma, São Pedro nos exorta, lembrando de que o Ressuscitado antes padecera a Cruz, que, embora a esperança, viva e incorruptível seja motivo de alegria para nós, talvez seja necessário ainda sofrermos as provações da vida para que a nossa fé seja acrisolada, purificada e seja ela, cada vez mais, sinal do amor que temos a Deus. Como ele mesmo diz para as trevas de nosso mundo: "sem ter visto Senhor, vós o amais. Sem over ainda, nEle credes. Isso será para vós motivo de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que credes: a vossa salvação!"
Foi-nos dado o Espírito Santo, que clama em nós: "Abbá!" Somente se assim nos dispusermos à ação do Espírito que nos torna como crianças diante de Deus. tornar-se-á possível o crescimento de sua obra.. Sim, Senhor, vós amastes a cada um de nós infinitamente e nese amor nos conduzis à salvação. Hoje, dai-nos viver este dia, esta Páscoa, esta Vida que nos destes na alegria e na simplicidade de crianças recém-nascidas. Dai-nos buscarmos a vós como o Cristo vos busca. Buscamo-Vos nEle, Palavra e Sacramento, Ação de Graças que se dá a vós na eternidade porque eterna é a vossa misericórdia.
A Ele, que convosco e o Espírito Santo, reina sobre todo o universo, a glória, o poder e a majestade, pelos séculos dos séculos. Amém!
Neste mês de maio, continuamos a celebrar a Páscoa do Senhor, mas tradicionalmente é costume louvarmos de modo muito iintenso à Virgem Maria. Gostaria de compartilhar com vocês uma parte da Anáfora (oração Eucarística) de São João Crisóstomo, e em seguida outra da Anáfora de São Basílio, respectivamente, ambas usadas nas Divinas Liturgias (Missas) de Rito Oriental. Importante notar: esses louvores à Virgem Maria são cantados pelo povo. Unamos a nossos irmãos orientais nossa voz e rezemos:
Verdadeiramente é digno e justo que te bendigamos, ó bem-aventurada Mãe de Deus. Tu, mais venerável que os Querubins e ,incomparavelmente, mais gloriosa que os Serafins; deste à luz o Verbo de Deus, conservando intacta a glória da tua virgindade. Nós te glorificamos, ó Mãe de nosso Deus!
Ó cheia de graça, em ti rejubila-se toda a criação! A assembléia dos anjos e o gênero humano te glorificam, ó templo santificado, paraíso espiritual e glória das virgens, na qual Deus se encarnou e da qual se tornou Filho aquele que é nosso Deus antes dos séculos. Porque fez de teu seio um trono e as tuas entranhas, mais vastas que os céus. Ó cheia de graça, em ti rejubila-se toda a criação e te glorifica!
... e iniciamos bem, ainda na Oitava de Páscoa, quando o Santo Padre Bento XVI, beatificou seu imediato predecessor (algo que não acontecia há cerca de 1000 anos), o Bem-aventurado João Paulo II. Com isso, o Papa de 26 anos de minha vida, que influenciou a todos nós, foi elevado às honras dos altares.
Pois bem, assim aconteceu no por ele instituído Domingo da Misericórdia, este ano 1º de maio, início do mês mariano. Para motivar este aspecto, lembramos da dedicação que João Paulo II fez de sua vida, entregando-se a ela dizendo "totus tuus", "todo teu". Na vigília de oração por esse evento tão grandioso, o Papa Bento XVI rezou as palavras que se seguem:
Ave-Maria, Mulher pobre e humilde,abençoada pelo Altíssimo! Virgem da esperança, profecia dos tempos novos, nós nos associamos ao vosso cântico de louvor para celebrar as misericórdias o Senhor, para anunciar a vida do Reino de Deus e a plena libertação do homem.
Ave-Maria, humilde serva do Senhor, gloriosa Mãe de Cristo!
Virgem fiel, morada santa do Verbo, ensinai-nos a perseverar na escuta da Palavra, a sermos dóceis à voz do Espírito, atentos a seus apelos na intimidade da consciência e em suas manifestações nos eventos da história.
Ave-Maria, Mulher da dor,Mãe dos vivos! Virgem esposa junto à Cruz, nova Eva, sede nossa guia pelas estradas do mundo ensinai-nos a viver e a difundir o amor de Cristo, a portar com humildade a nossa cruz e estar convosco junto à cruz de Cristo – junto aos fracos, aos
sofredores, aos marginalizados, aos pobres e a conhecer neles o rosto de Cristo
Ave-Maria, Mulher da fé, primeira dos discípulos! Virgem Mãe da Igreja, ajudai-nos a dar sempre razão da nossa esperança, confiando na bondade do homem criado por Deus
Bem, agora para tranquilizar nosso coração agitado...
Além da Vigília Pascal na Noite Santa, tive uma outra experiência muito feliz. Após a Vigília, olhei meio despretensiosamente meus emails e vi uma mensagem de Ir. Francesca, madre da Servas da Santíssima Trindade, direto de seu mosteiro, na cidade arquiepiscopal de Maceió. Elas oram pelo sacerdócio no mundo inteiro, especialmente pelos sacerdotes mais problemáticos, confeccionam artigos litúrgicos e devocionais e zelam diariamente por uma liturgia reverente e decentemente celebrada.
Entre outras palavras da mensagem, estava um comovente texto de Santo Agostinho (Discurso 231,5), que gostaria de passar a todos vocês, que compartilham comigo este espaço, dando um abraço de Boa Noite, no desejo de que nossa Páscoa continue e sejamos felizes nEla, no Cordeiro Pascal, que é Cristo:
«Tende fé! Vireis a Mim e haveis de saborear os bens da minha mesa, como é verdade que Eu não recusei saborear os males da vossa mesa... Prometi-vos a minha vida... Como antecipação, franqueei-vos a minha morte, como que para vos dizer: Convido-vos a participar na minha vida... É uma vida onde ninguém morre, uma vida verdadeiramente feliz, que oferece um alimento incorruptível, um alimento que restabelece e nunca acaba. A meta a que vos convido... é a amizade como o Pai e o Espírito Santo, é a ceia eterna, é a comunhão comigo ... é participar na minha vida»
Só em lembrar disso viver essa Páscoa já valeu a vida inteira... "Vossa vida está escondida com Cristo, em Deus."
mais cedo abordávamos como o Papa Bento XVI tratava a questão do anúncio alegre do Reino encontra seu eco mais profundo apenas e unicamente no Mistério Pascal. Agora, gostaria de tomar um texto mais antigo dele, ainda de quando era padre, de 1970, publicado em português pela Editora Herder, agora já reeditado por outras. É a "Introdução ao Cristianismo". Lá, o nosso estimadíssimo autor faz uma leitura profunda dos artigos do Credo. E nessa obra, ele comenta a Eucaristia dentro da perspectiva da Ressurreição. Observando as duas obras, temos um suplemento incrível. Convido-o a degustarmos esta outra obra tão bendita. Partamos do princípio que Aquele que é reconhecido permanece de certa forma desconhecido, um desconhecido que revela o que lhe apraz. O papa segue normal, eu, em itálico, como de costume nesses casos.
"Examinemos mais de perto, sob este aspecto, o episódio dos discípulos de Emaús, com que já nos deparamos de passagem. À primeira vista tem-se a impressão de estarmos diante de uma descrição totalmente terrena, maciça, como se nada restasse do mistério indescritível que encontramos nos relatos paulinos. Parece predominar totalmente a tendência de enfeitar, de lançar mão de um concreto lendário, apoiada numa apologética que busca dados palpáveis, recolocando completamente o Senhor ressuscitado dentro da história terrena. Contudo opõe-se a isto o seu misterioso aparecimento e o não menos misterioso desaparecimento. Mais ainda se opõe a circunstância de ele se conservar irreconhecível ao olhar comum. Não é possível identificá-lo como durante a sua vida terrena. Ele se descobre exclusivamente na esfera da fé; mediante a explicação da Escritura incendeia o coração dos dois viandantes, e à fracção do pão abre-lhes os olhos. Temos aí a indicação dos dois elementos fundamentais da antiga liturgia cristã a qual é integrada de liturgia da palavra (leitura e interpretação da Escritura) e liturgia da fracção do pão eucarístico. Assim o evangelista faz ver que o encontro com o Ressuscitado se situa em um plano totalmente novo; tenta descrever o indescritível, mediante o código dos acontecimentos litúrgicos. Com isto oferece, simultaneamente, uma teologia da Ressurreição e da liturgia: o Ressuscitado é encontrado na palavra e no sacramento; o serviço divino é a maneira pela qual ele se nos torna tangível e reconhecível como vivo. Vice-versa, liturgia baseia-se no mistério pascal; há de ser compreendida como a aproximação do Senhor a nós, a tornar-se companheiro nosso de viagem, incendiando o coração embotado, abrindo os olhos fechados. Cristo continua indo conosco, volta sempre a encontrar-nos desanimados e queixosos, continua dispondo da força para fazer-nos ver."
"Naturalmente isto tudo diz apenas a metade. O testemunho do Novo Testamento estaria falseado, se quiséssemos ficar apenas nisto.A experiência do Ressuscitado é algo diverso do encontro com um homem da nossa história; muito menos ainda pode ela ser reduzida a conversas à mesa e a recordações que se tivessem afinal condensado na idéia de que ele vive e de que a sua obra prossegue. Uma explicação assim aplaina o evento na direção oposta, nivelando-o à esfera humana, privando-o do que lhe é peculiar.Os relatos da ressurreição são algo diferente e algo mais que meras cenas litúrgicas camufladas: eles permitem ver o acontecimento fundamental sobre o qual se ergue toda a liturgia cristã. Testemunham um acontecimento que não brotou dos corações dos discípulos, mas que lhes sobreveio de fora, dominando-os, de encontro à sua dúvida, e infundindo-lhes a certeza de que "o Senhor ressuscitou verdadeiramente". (Observação minha: muitos teólogos, ditos modernos ou liberais, que já não acreditam mais no Mistério de Deus - diga-se a verdade - continuam aí, na Igreja Católica, nem a abandonando nem se convertendo, mas pelo contrário pervertendo o coração de fiéis e até mesmo de membros do clero. Pronto: terreno fértil para todo tipo de abuso litúrgico. E não estamos falando de ritualismo; estamos falando daquilo que é o 'centro e o ápice de nossa fé', conforme nos lembra o próprio Concílio Vaticano II. Com isso, minam a fé dos fiéis por dentro, deixando que eles esqueçam que aquele rito, aquele gesto, aquelas palavras nos falam mais do que elas mesmas dizem, apontam para o inefável, fazem arder o coração, desembota nossa visão. O homem, a comunidade, o padre, o animador musical, o coral, as tais e ingratas equipes de liturgia não podem, não conseguem não têm o poder de suscitar um acontecimento tão grande; se não se reconhece que a ação nos precede, nos envolve e vai aidante de nós, o nosso olhar sobre os Sagrados Mistérios está destinado à cegueira. De fato, a Eucaristia é um dom do alto). O que jazera no sepulcro não está mais lá, mas vive – é realmente ele mesmo quem vive. O que fora arrebatado para o outro mundo de Deus, mostrou-se entretanto ser tão poderoso que tornava palpável ser ele mesmo quem estava diante deles; mostrou ter-se comprovado nele mais forte o poder do amor do que o poder da morte.
Somente tomando isto tudo tão a sério como o que fora dito anteriormente é que se conservará a fidelidade ao testemunho do Novo Testamento; só assim se salvará a sua seriedade cosmo-histórica. A tentativa mais que cômoda de, por um lado, dispensar a fé no mistério da potente atuação de Deus neste mundo, e no entanto simultaneamente querer ter a satisfação de conservar-se no terreno da mensagem bíblica esta tentativa conduz ao vácuo: não satisfaz nem à honestidade da razão nem às razões da fé. Não é possível conservar juntas a fé cristã e a "religião nos limites da razão pura"; a opção é inevitável. Naturalmente, o crente verá com clareza crescente quão repleta de razão está a adesão àquele amor que venceu a morte.
E lembro ainda, caro irmão, tomemos cuidado para que, com isso, não venha a morrer a nossa fé e nossa esperança diante do imorredouro. A cruz sem a ressurreição seria masoquismo; a ressurreição sem a cruz seria um devaneio etéreo; a Eucaristia sem ambas (radicadas em cada gesto, palavra, seguindo o ritual da Santa Igreja e num espírito de profundo entrosamento com o Mistério Pascal, em oração) correria de um lado a outro: do ritualismo preciosista ao espetáculo circense, passando mesmo pelo indiferentismo ritual. E isso não é o sagrado, não permite irromper o Cristo na história, e muito menos elevar o nosso espírito à eternidade. Sobra apenas a chatice dos mesmos apelos infra-históricos, como aqueles que desanimavam os discípulos de Emaús.
Na noite em que foi entregue, nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. Em seguida, tomando o cálice, deu graças e disse: “Tomai e bebei: isto é o meu sangue” (cf. Mt 26,26-27; 1Cor 11,23-24). Tendo, portanto, pronunciado e dito sobre o pão: Isto é o meu corpo, quem ousará duvidar? E tendo afirmado e dito: Isto é o meu sangue, quem se atreverá ainda a duvidar e dizer que não é o seu sangue?
Recebamos, pois, com toda a convicção, o Corpo e o Sangue de Cristo. Porque sob a forma de pão é o corpo que te é dado, e sob a forma de vinho, é o sangue que te é entregue. Assim, ao receberes o corpo e o sangue de Cristo,te transformas com ele num só corpo e num só sangue. Deste modo, tendo assimilado em nossos membros o seu corpo e o seu sangue, tornamo-nos portadores de Cristo; tornamo-nos, como diz São Pedro, participantes da natureza divina (2Pd 1,4).
Outrora, falando aos judeus, dizia Cristo: Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós (cf. Jo 6,53). Como eles não compreenderam o sentido espiritual do que lhes era dito, afastaram-se escandalizados, julgando estarem sendo induzidos por Jesus a comer carne humana.
Na Antiga Aliança havia os pães da propiciação; por pertencerem ao Velho Testamento, já não mais existem. Na Nova Aliança, porém, trata-se de um pão do céu e de um cálice da salvação que santificam a alma e o corpo. Assim como o pão é próprio para a vida do corpo, também o Verbo é próprio para a vida da alma.
Por isso, não consideres o pão e o vinho eucarísticos como se fossem elementos simples e vulgares. São realmente o corpo e o sangue de Cristo, segundo a afirmativa do Senhor. Muito embora os sentidos te sugiram outra coisa, tema firme certeza do que a fé te ensina.
Se foste bem instruído pela doutrina da fé, acreditas firmemente que aquilo que parece pão, embora seja como tal sensível ao paladar, não é pão, mas é o corpo de Cristo. E aquilo que parece vinho, muito embora tenha esse sabor, não é vinho, mas é o sangue de Cristo. Antigamente, bem a propósito, já dizia Davi nos salmos: O pão revigora o coração do homem, e o óleo ilumina a sua face (Sl 103,15). Fortifica, pois, teu coração, recebendo esse pão espiritual e faze brilhar a alegria no rosto de tua alma.
Com o rosto iluminado por uma consciência pura, contemplando como num espelho a glória do Senhor, possas caminhar de claridade em claridade, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem sejam dadas honra, poder e glória pelos séculos sem fim. Amém.
Fostes conduzidos à santa fonte do divino Batismo, como Cristo, descido da cruz, foi colocado diante do sepulcro. A cada um de vós foi perguntado se acreditava no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Vós professastes a fé da salvação e fostes por três vezes mergulhados na água e por três vezes dela saístes; deste modo, significastes, em imagem e símbolo, os três dias da sepultura de Cristo.
Assim como nosso Senhor passou três dias e três noites no seio da terra, também vós, na primeira emersão, imitastes o primeiro dia em que Cristo esteve debaixo da terra; e na imersão, a primeira noite. De fato, como aquele que vive nas trevas não enxerga nada, pelo contrário, aquele que anda de dia está envolvido em plena luz. Assim também vós, na imersão, como que mergulhados na noite, nada vistes; mas na emersão, fostes como que restituídos ao dia. Num mesmo instante, morrestes e nascestes, e aquela água de salvação tornou-se para vós, ao mesmo tempo, sepulcro e mãe.
Apesar de situar-se em outro contexto, a vós se aplica perfeitamente o que disse Salomão: Há um tempo para nascer e um tempo para morrer (Ecl 3,2). Convosco sucedeu o contrário: houve um tempo para morrer e um tempo para nascer. Num mesmo instante realizaram-se ambas as coisas e, com a vossa morte, coincidiu o vosso nascimento.
Ó fato novo e inaudito! Na realidade, não morremos nem fomos sepultados nem crucificados nem ainda ressuscitamos. No entanto, a imitação desses atos foi expressa através de uma imagem e daí brotou realmente a nossa salvação.
Cristo foi verdadeiramente crucificado, verdadeiramente sepultado e ressuscitou verdadeiramente. Tudo isto foi para nós um dom da graça, a fim de que, participando da sua paixão através do mistério sacramental, obtenhamos na realidade a salvação.
Ó maravilha de amor pelos homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação.
Ninguém, portanto, julgue que o batismo consista apenas na remissão dos pecados e na graça da adoção filial. Assim era o batismo de João que concedia tão-somente o perdão dos pecados. Pelo contrário, sabemos perfeitamente que o nosso batismo não só apaga os pecados e confere o dom do Espírito Santo, mas é também o exemplar e a expressão dos sofrimentos de Cristo. É por isso mesmo que Paulo exclama: Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele (Rm 6,3-4).
ontem terminamos de celebrar o Dia de Páscoa, completado em sua Oitava. Agora, continuamos por mais seis semanas a contemplar, celebrar, meditar esse Mistério tão grande, durante o Tempo Pascal, que se completa com o Dia de Pentecostes, esse ano 12 de junho. Nesse tempo, a Igreja quer meditar com seus filhos o significado das aparições de Jesus (semana passada), os sacramentos de inciação cristã (essas próximas 3 semanas) e o Dom do Espírito Santo, meio através do qual todos os Sacramentos são-nos transmitidos. De fato, era assim que ontem, Oitava de Páscoa, pedíamos a Deus, nas horas canônicas e na Santa Missa: "Fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu vida nova, e o Sangue que nos redimiu". De fato, a forma extraordinária da Missa em Rito Latino ainda prevê a leitura de um trecho da I Carta de São João, onde nos é lembrado (1Jo 5,6-8): "Ei-lo, Jesus Cristo, aquele que veio pela água e pelo sangue; não só pela água, mas pela água e pelo sangue. E o Espírito é quem dá testemunho dEle, porque o Espírito é a verdade. São, assim, três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; estes três dão o mesmo testemunho". Este é, pois, o tempo de aprendermos a ler em nossa existência cristã esse testemunho, até mesmo porque, sem eles essa mesma existência deixa de ser propriamente cristã. Voltaremos ainda a esse ponto com um texto dos Padres da Igreja, que são ricos e belíssimos nesse sentido.
Voltemos ao Papa Bento XVI. Em seu livro recém-lançado, Jesus de Nazaré, cujo comentário iniciei em março e fiquei devendo em abril, ele dedica um capítulo inteiro à Última Ceia de Jesus. Entre outros aspectos, parece-me decisivo comentar este, no que tange ao anúncio alegre das bem-aventuranças, seus milagres e portentos e mesmo uma Ceia Pascal, cujo caráter era sempre festivo, coadunarem com a idéia do sacrifício do Calvário. A ele (capítulo V):
"Um fato tão grandioso e único do ponto de vista teológico da história das religiões, como é ilustrado pelas narrações da Última Ceia não podia deixar de ser posto em questão pela teologia moderna: a imagem do rabi afável que muitos exegetas traçam de Jesus não é compatível com uma realidade tão inaudita. Nõ se pode 'crê-lO capaz' disso. E, naturalmente, também não concorda com a imagem de Jesus como rebelde político. Deste modo, uma parte considerável da exegese atual contesta que as palavras da instituição remontem verdadeiramente a Jesus. Dado que se tratam aqui do núcleo, em absoluto, do cristianismo e do aspecto central da figura de Jesus, devemos ver o assunto mais de perto."
(Observação minha: uma horda de teólogos propugna o relativismo sem fronteiras e ousa inclusive pôr em dúvida se as palavras da instituição da Eucaristia foram ou não de Jesus. Não haveria problemas maiores se isso não saíssem de seus acolchoados escritórios. O problema é que tal expediente está presente liminar ou subliminarmente entre muitos padres e até bispos, chegando a estragar a experiência de fé dos fiéis. É um desafio muito grande fazer com que uma Igreja de 1 bilhão de membros, ainda que a maioria - talvez até por causa disso também - seja apenas estatística, venha a crer primeiramente na divindade de Jesus e finalmente de que Ele e o Pai são capazes livremente de tomar qualquer ação em prol da salvação da humanidade por amor. Pois bem, se o desafio é grande, e muito de seu enfrentamento vem prioritariamente de Deus, por pura graça e misericórdia, Bento XVI, qual bom pastor, aceita o desafio. É verdade, leu muito, estudou muito, mas acima de tudo, crê muito, reza muito!!!)
"A objeção principal contra a originalidade histórica das palavras e dos gestos da Última Ceia pode ser resumida assim: haverá uma contradição insolúvel entre a mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus e a idéia de seua morte expiatória em função vicária. Ora, o núcleo íntimo das palavras da Última Ceia é o 'por vós - por muitos', a autodoação vicária de Jesus e, conjuntamente, a idéia de expiação. Enquanto João Batista, perante o juízo iminente, chamou à conversão, Jesus, como mensageiro da alegria, terá anunciado proximidade do domínio de Deus e a vontade incondicionada de perdão, o domínio da bondade e da misericórdia de Deus. 'A última palavra, que Deus pronuncia através do seu último mensageiro (o mensageiro da alegria depois do último mensageiro do juízo, João Batista), é uma palavra de salvação. O que caracteriza o anúncio de Jesus é a orientação claramente prioritária para a promessa de salvação por parte de Deus, bem como a superação do Deus juiz iminente pelo Deus de bondade já presente". Com estas palavras, resume (Rudolph) Pesch o conteúdo essencial do raciocínio que sustenta a incompatibilidade da tradição sobre a Última Ceia com a novidade e a especificidade do anúncio de Jesus (Abendmahl, ref.)"
(Observação minha: desse ponto, Bento XVI segue sua linha acompanhando o que os teólogos liberais têm fumado por aí afora. Então, é chegada a hora de responder à pergunta:) "a expiação é compatível com a imagem pura de Deus? Não se trata, porventura, de um nível do desenvolvimento religioso da humanidade que deve ser superado? Porventuira Jesus, para ser o novo mensageiro de Deus, não deverá contrapôr-Se a esta idéia? (...)"
(...)
"De per si, uma tal evolução, ou seja, a entrada num novo caminho do amor depois da falência de uma primeira oferta, segundo a inteira estrutura da imagem bíblica de Deus e da história da salvação, é possível certamente. Dos caminhos da história de Deus com os homens, tal como são ilustrados no Antigos testamento, faz parte precisamente 'a flexibilidade' de Deus, que espera a decisão livre do homem e de cada 'não' faz brotar um novo caminho de amor. "
(...)
(Observação minha: meu caro, observe a sensibilidade com que Bento XVI responde à pergunta. Ele contempla o Deus das Escrituras, o Deus a quem Adão respondeu com um não, o Deus que tolerou Babel até seu termo, ,etc., até encontrar seu Filho ... entregue, crucificado, morto. Como diz o Salmo 102, trata-se de um Deus paciente, piedoso e compassivo, na maior radicalidade que se puder ou até mesmo não se puder alcançar esses termos. O leitor mais sensível vai perceber ainda um ponto importante, este relativo ao autor: percebe como Bento XVI, como Papa, age justamente assim? Não deixa de agir, não se omite, não é um cão mudo, como certos clérigos, mas não tem em si a pretensão de mudar radicalmente, de uma hora para outra, o destino de uma Igreja que padece , que certamente não é a Igreja de nossos sonhos, mas é a única Igreja de Cristo).
"O capítulo VI do Evangelho de João parece aludir a uma tal viragem no caminho de Jesus com os homens (Obs.: está na Missa do sábado da semana que vem, durante a qual a Igreja passa por uma catequese eucarística). ois de seu discurso eucarístico, o povo e muitos dos discípulos vão-se embora. Com ele, ficam apenas os Doze. Encontramos uma cisão semelhante no Evangelho de Marcos quando Jesus, depois da segunda multiplicação dos pães e da confissão de Pedro (cf. 8,27-30), inicia as predições da Paixão e Se encaminha para Jerusalém e para a sua última Páscoa" (Obs.: desse ponto em diante, os discípulos, que se orgulhavam dos milagres que faziam, não conseguem fazer um só milagre - a fé ficou menor do que uma semente de mostarda!!!).
"(...) Para Romano Guardini, nas suas obras sobre Jesus, (...), a mensagem de Jesus começa claramente com a oferta do Reino; o 'não' de Israel terá suscitado a nova fase da história da salvação, de que fazem parte a morte e a ressurreição do Senhor e a Igreja dos gentios."
(...)
" (...) Jesus identifica a sua missão com a que foi confiada a Isaías depois do encontro com o Deus vivo no Templo: fora dito ao profeta que, num primeiro tempo, a sua missão teria contribuído apenas para uma obstinação ainda maior e só através desta é que poderia depois chegar à salvação. Aos discípulos, Jesus, já na primeira fase do seu anúncio, diz-lhes precisamente que essa terá sido a estrutura do seu caminho (cf. Mc 4,10-12; Is 6,9-10)."
"Mas, deste modo, todas as parábolas - a mensagem inteira do Reino - são colocadas sob o signo da cruz. Partindo da Última Ceia e da ressurreição, poderemos afirmar que é precisamente a cruz a radicalização extrema do amor incondicionado de Deus: amor em que Ele não obstante toda a negação por parte dos homens, Se dá a Si mesmo, toma sobre Si o 'não' dos homens, atraindo-o deste modo para dentro do seu 'sim' (cf. 2Cor 1,19)."
Assim, "não existe contradição entre a jubilosa mensagem de Jesus e a sua aceitação da cruz enquanto morte pela multidão; antes, pelo contrário: só na aceitação e na transformação da morte é que o feliz anúncio atinge toda a sua profundidade. Aliás, a idéia de que a Eucaristia se tenha formado no âmbito da 'comunidade' é mesmo do ponto de vista histórico, absolutamente absurda. Quem poder permitir-se conceber um tal pensamento, criar uma tal realidade? Como teria sido possível os primeiros cristãos - evidentemente, já nos anos 30 - aceitarem semelhante invenção sem levar obejeções?
(Observação minha: aqui, no auge dessa resposta de Sua Santidade, páro e fico a contemplar. Não bastasse o fato de que o Mistério Pascal -Paixão, Moste, Sepultura e Ressurreição - de Cristo em nada contradiz seu anúncio do Reino, antes o justifica, aqui o autor trata de voltar ao tema que o motivou a isso. A instituição foi feita por Ele ou não? Seria isso coerente com o Reino? Meus caros, se não fosse isso, que Reino? De que Reino poderia se tratar? Dos reinos das utopias humanas, em que alguém tem uma idéia genial e alcança uma multidão que a legitime socialmente e as forças de consenso venham a preponderar? Mas esses reinos sempre existiram, e o único odor que produziram foi o de morte, de tristeza, de um visível ocaso da história. O Reino é impossível sem que alguém se entregue e sem que esse alguém seja Deus mesmo. Só Ele penetra so seu profundo significado, só ele "inte-lege", lê por dentro e o torna possível. Só Ele é o Reino. E mais, se a Eucaristia ao fosse dEle, dom dEle, sempre dEle, em favor de nós e de muitos, se a Eucaristia fosse sempre ou, ao menos que fosse, algo deliberado pela comunidade, ela seria apenas um simulacro do Reino, o ópio das massas. Quanto desse conteúdo ateu, neopagão, apóstata, ruído em sua continuidade com a entrega de Jesus, a tradição apostólica, o testemnuho dos mártires e da vida dos santos, não está em nossas paróquias, conventos, mosteiros e comunidades diversas? Em quantos lurgares, subsistem apenas o núcleo pela fé de um mínimo rebanho, proporcional a eles? Se a Eucaristia não for reconhecida como um Dom de Jesus em pessoa e só depois, tomando a orgânica continuidade dos tempos na elaboração da Liturgia, ela corre o risco de perder muito, inclusive a cair em simulacro, e a nós fiéis, resta-nos um testemunho radical, num olhar fixo em Jesus, ou uma apostasia tranqüila, mas longe, bem distante de Deus.)
Voltamos ainda em breve em considerações sobre a Eucaristia, da parte do Papa Bento XVI.