segunda-feira, 17 de maio de 2010

"Pai, pelos meus te peço..."

Estamos para encerrar o Tempo Pascal e não poderia deixar de escrever agora, para que o final desses 50 dias não passasse em branco. A todos nós, é muito recomendável, nestes dias, ler o discurso que Jesus realiza na última Ceia, especialmente o capítulo 17 inteiro do Evangelho de João. Será leitura do Evangelho diariamente na semana que vem. Também o Santo Padre se debruçou com maestria sobre esse texto na Missa da Última Quinta-feira Santa, in Coena Domini, lembrando do grande benefício da Páscoa: o de que todos conheçam a Deus. Está em:  http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100401_coena-domini_po.html , cuja leitura recomendo vivamente.

Nesse capítulo, o evangelista enxerga Jesus no contexto de sua despedida, depois de ter falado de seu desaparecimento, agora, orando ao Pai em favor dos que ficam. Nesse texto, a comunidade dos discípulos (Igreja, semente de um mundo renovado) é sentida ser o sonho profundo de Deus, no seu diálogo eterno, diálogo em que os dialogantes estão profundamente interpenetrados. É aí que a Igreja (nós) deve encontrar o seu Princípio, sua característica, sua identidade. Aliás, nessa ocasião, Jesus, ao “elevar o olhar para os céus” (cf. v.1), está realizando o mesmo movimento que o evangelista, no Prólogo (cap. 1), associa ao Verbo de Deus: “No Princípio, era o Verbo; e o Verbo estava voltado para Deus”. Esse movimento é o de Jesus, o Verbo na carne. Várias vezes, no Evangelho, Jesus se encontra nessa perspectiva: a de olhar, em tudo, para o Pai.



Entretanto, o olhar para o Pai não é, na pessoa do Filho, fonte de um certo essenismo, esquecido das realidades presentes. Pelo contrário, aí está justamente a razão de olhar com profunda compaixão (ou seja, fazendo em si a memória dos sofrimentos do outro) para todos os dramas humanos. “Rogo-vos pelos que me deste” ou “Eles são teus” são expressões que nos lembram de que, nesse contexto da Páscoa de Jesus, fomos declarados filhos de Deus. Esta é a verdade sobre nós (“consagra-os na verdade”, lembram?). De fato, se não fosse para nos envolver pela gratuidade de nosso Deus, gratuidade esquecida, esquecimento que é causa de nosso drama, de nada nos adiantaria todo esse “investimento” de Deus, em nossa carne, onde um de nós, o mais inocente, o mais verdadeiro, o mais pleno, é julgado injustamente e assassinado de maneira cruenta.


Porém, as estruturas do mundo, ministras do desespero, polarizam nossa atenção para a condição oposta. Só para ilustrar: estou acompanhando um caso de uma família que se degladia por causa de bens. Muitos de nós passamos por isso, e sabemos como é doloroso. A lógica de mercado e de consumo que impregna nossos poros assim o faz. E talvez não seja muito honesto de nossa parte dizer que jamais nos envolveríamos com isso. Há uma sede de possuir muito grande... E não só de possuir bens, mas pessoas, sentimentos, situações...


Por que será? Onde está nossa esperança? Certa feita, há uns seis anos, passava numa livraria e lia algumas páginas dos livros de Lya Luft, escritora que fez muito sucesso na Bienal do Livro de 2003. Em um deles, “Perdas e Ganhos”, a autora lembrava que a morte não nos persegue, mas nos espera. E é justamente a perspectiva da morte que oferece a possibilidade de se valorizar a vida, de amar sem perder tempo, de ser honesto sem perder tempo, de valorizar o outro e ser feliz com ele, hoje, sem perder tempo. Já diziam os antigos monges: “põe teus olhos no dia de tua morte”. Não é um mandamento, mas um exercício, para que possam, já em nossa passagem aqui na terra, ser transfiguradas todas as realidades perante nossos olhos. Dá-se, pois, em podermos perceber a riqueza e o valor eternos que encontram perante o olhar despojado de todo desejo de posse.

Vemos, pois, em Jo 17, Jesus, na perspectiva de sua morte, olhando para o Pai. Diz Santa Teresa de Jesus que a razão de toda a nossa infelicidade é não mantermos os olhos fixos em Deus. Martin Buber, grande filósofo judeu do século XX, lembra que a nossa melancolia se origina na dificuldade em se dizer “TU”, onde o outro é um outro de verdade, e não uma extensão de mim mesmo, um objeto sobre o qual só consigo dizer “ISSO”. Jesus, ao olhar para o alto, põe-nos na perspectiva deste mesmo movimento: olhar para os dons mais altos, para o dom por excelência – Deus é Pai. E estamos insertos no influxo de sua gratuidade, de seu amor e de seu plano eterno. Se pudermos dar um nome a esse ambiente, esse nome é Espírito Santo, o ambiente dialógico entre o Pai e o Filho, entre o Pai e seus filhos. Nesse ambiente, os filhos de Deus são concebidos; dele se alimentam; nele crescem e encontram a alegria para viver, mesmo com todas as provas que a vida trouxer, porque a esperança é outra...


Eis a Páscoa – sublime diálogo:

– “Tu és meu Filho – eu hoje te gerei!” (Sl 2,7)

– “Senhor, tu és meu Pai!” (Sl 88, 27)


Até mais.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Do Seridó a Roma - Trajetória de um Jesuíta

No decorrer deste ano sacerdotal, entre outras leituras e conferências, estou tendo a oportunidade de ler uma obra exemplar. Trata-se do livro "Do Seridó a Roma - Trajetória de um Jesuíta". A obra foi escrita por Everaldo Dinoá Medeiros (Ir. Tomé, Obl. OSB), que trata da recuperação da memoria de um de seus mais ilustres ancestrais, o Pe. Sebastião Constantino de Medeiros, que foi pároco em Caicó (RN), no decorrer do século XIX, quando aquela cidade ainda era pertencente à Diocese de Olinda, uma das mais antigas e importantes do Brasil.

Além do testemunho do zelo pastoral, sacramental, da obediência, do serviços prestados à Santa Igreja, inclusive quando a Sé de Olinda esteve vacante. No livro, estão diversos registros dessa atividade intrépida, envolta pelos costumes da família sertaneja onde foi criado, da sociedade da época e da Igreja no Brasil, sendo assim muito bem contextualizado.

Chama-nos muita atenção a coerência com que o autor procura preencher as lacunas de informações existentes na História do Brasil, com outras vindas de bibliotecas do exterior, especialmente de Roma.

Pontos altos do livro estão no que diz respeito à questão religiosa (separação Igreja-Estado) e o papel de D. Vital, bispo de Olinda. O autor nos aponta uma Igreja corajosa, capaz de, com toda a sensibilidade pastoral, desfazer aquilo que seus inimigos fazem, estando no meio dela, e, na hora de ser um testemunho corajoso diante de autoridades que desejam se sobrepôr ao Cristo, encontra bispos capazes de se pôr na "linha de tiro", para que a Igreja continue a ser o um lugar de glorificação de Deus e não dos homens. Bem que se poderia tirar da boca de D. Vital as palavras de São Pedro: "é preciso obedecer a Deus antes que aos homens".

Num tempo como o nosso, num dia como o de hoje, quando se encerram as reuniões da Assembléia Geral da CNBB, num ano sacerdotal, e especialmente, no Tempo Pascal, quando celebramos a fundação da Igreja de Cristo, o testemunho desses pastores nos aponta para a grandeza de nossos antepassados, o valor com que, aqui, em terras brasileiras, puderam plantar o Evangelho, e colhê-los no meio de um povo cheio de fé.

É verdade que os tempos são outros, os desafios são maiores, porém o Evangelho é o mesmo, Cristo é o mesmo, e o Espírito, aquele que dá a todos os tempos o poder do Senhor à Igreja, também é o mesmo. Se o desafio é maior, é para que Cristo seja engrandecido ainda mais. Em meio a todas as terríveis notícias que recebemos, lembrar de antepassados como Pe. Sebastião e D. Vital é uma glória e uma força motriz para que tenhamos uma cristandade que no Brasil encontre neles alento e força, sinais de que Deus nunca abandona sua Igreja.

Parabéns ao Everaldo pela belíssima obra. Esperamos que muitos frutos ainda venham dessa memória viva do Pe. Sebastião.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pentecostes

Irmãos e amigos,


Estamos já no final de nosso Tempo Pascal. Mais duas semanas, e estaremos de volta ao Tempo Comum, mas falaremos sobre este tempo no momento oportuno.

Queremos hoje lembrar que daqui a dois Domingos, a Igreja de Cristo celebra a Solenidade de Pentecostes. Muita gente fala em Pentecostes como a festa do Espírito Santo, mas do que se trata mesmo?

Em tempos de outrora na Antiga Aliança do povo de Israel, celebrava-se, como ainda hoje entre os judeus, a Festa das Semanas, ou da Colheita, 50 dias apos a Páscoa. Isso, porque nesse dia o primeiro feixe das plantações era colhido e entregue ao sumo-sacerdote para oferecer em agradecimento a Deus pelo primeiro fruto das plantações, e, depois se iniciava a colheita.

O que isso tem a ver com a Páscoa cristã?

Cristo morreu e foi sepultado, segundo as escrituras, e o Pai o ressuscitou inundando seu corpo e alma mortos de seu Espírito Santo. É o mesmo Cristo, com seu mesmo corpo, agora glorificado, com sua mesma alma, agora também glorificada, plenificada pelo Espírito. Recebendo este Espírito, Ele o doa aos Apóstolos, fundando agora sua Igreja, sinal de sua presença no mundo durante os séculos, para que estes, com seus legítimos sucessores, os bispos, em comunhão com o Santo Padre, transmitam esse mesmo Espírito, através da Palavra de Deus proclamada e explicada através das culturas e dos séculos e, eficazmente, através dos sacramentos, particularmente o da Eucaristia (Missa), onde se torna constantemente presente o único e perfeito sacrifício de Cristo na cruz e o mistério da Páscoa, pelo qual nos é dado o seu Espírito Santo.

Este acontecimento (Cristo Deus doando o seu Espírito aos Apóstolos e fundando a Igreja Católica) se deu no dia mesmo da Ressurreição e nisso, ao verem o fruto do Amor do Pai sobre o Filho, reacenderam a esperança em seus corações (sim, pois a morte daquele que seria rei os deixou completamente sem sentido, como ficamos quando alguém em quem depositamos toda a nossa vida morre). Eles, de covardes que eram, se tornaram anunciadores ferrenhos do Evangelho, custasse o que tivesse de custar, até a morte com derramamento de sangue, tal como seu Senhor.

Por vários dias, como testemunha São Paulo (1Cor 15,1-8), Cristo realizou a graça de elevar as faculdades psicossomáticas de vários discípulos a algo que na Bíblia é chamado de visão ou aparição do Cristo Ressuscitado, até que num belo dia não mais se via o Cristo na forma visível, a não ser pela fé, na sua Palavra e nos sacramentos, sobretudo. Associa-se esse tempo ao do amadurecimento da fé na Ressurreição, como na Antiga Aliança as plantações amadureciam. A Tradição de São Lucas, assim, situou o acontecimento do dom do Espírito Santo sobre os Apóstolos, Maria e algumas mulheres (ver At 1-2) exatamente no quinquagésimo dia após a primeira experiência da Ressurreição. Por isso, o Tempo Pascal se estende por 50 dias, desde a Vigília Pascal, até o Oitavo Domingo contado a partir do Domingo da Ressurreição, o Domingo de Pentecostes.

Tudo bem! E o que minha vida tem a ver com tudo isso?

Foi pelo Espírito Santo que os Apóstolos falaram em línguas, curaram doentes, denunciaram crimes, deram sentido a diversas vidas perdidas, revivificaram mortos, como nos narra a Tradição lucana dos Atos dos Apóstolos. Que dizem estes acontecimentos para nos?

Somos chamados a Unidade e, portanto, desmascararmos toda espécie de dualismos e de divisões entre homem e Deus, corpo e alma, vida material e vida espiritual, homem e mulher, entre os diversos grupos e comunidades, nações e raças, no sentido de caminharmos todos para a nossa grande morada no seio do Pai. Para isto o homem foi criado, para ser santificado, divinizado. E o homem sente isso em cada desejo de plenitude, de gloria, de realização, porém o homem sozinho já mostrou isso, a Historia está aí para ser vista e encarada de frente. Hoje, vemos a violência instalada em todos os lugares, mas pior do que essa guerra é a guerra silenciosa, sutil, discreta que se trava nos corações humanos, desumanizando-os. Até que o homem de hoje fala muito em unificação, mas uma unificação sem Deus, unificação que exclui que mata, que destrói. Tenta a querer construir um mundo só nosso, em que possamos até acreditar em Deus para alguma coisa que nos sirva para isso, mas logo depois pode ser esquecido. É o homem querendo construir uma torre que alcance os céus das realizações pessoais sozinho. Lembra-me a narrativa da Torre de Babel, no capitulo 11 do Livro do Genesis, em que a única conseqüência foi confusão (=Babel, em hebraico), ninguém mais se entendia. Este é o fruto da separação de nossas realidades materiais da presença de Deus.

Achamos que Deus irá tomar o nosso tempo ou as nossas coisas? É um medo vão. Lembremos que Deus, ao se fazer homem em Cristo não se fez um usurpador dos demais, mas, como diz São Paulo na Carta aos Filipenses, "Ele se fez obediente ate' a morte, e morte de cruz". Da morte, o Pai o ressuscitou, e da Ressurreição, deu-nos a vida, construindo agora um edifício espiritual, muito mais interior: a Igreja, os cristãos, na potência do seu Espírito Santo, no qual continuamente recebemos sua vida divina pelos sacramentos. Mas é esse edifício, que Santo Agostinho tão acertadamente chamou "Cidade de Deus", lembrando as palavras do Salmo 45, que torna possível a realização da cidade terrena de forma digna e plena.

Coloquemos nossa vida, desde o trabalho até as diversões, desde os relacionamentos humanos até nossos projetos, nossas mortes diárias e vitórias na mão do Senhor. Deixemo-nos envolver pelo seu Espírito, pelo
seu sopro suave, que "consola o nosso pranto e sustenta o nosso canto".

Passemos deste mundo para o Pai, ou seja, enxerguemos todas as coisas não mais segundo nossas aspirações mesquinhas, mas segundo a visão de Cristo Morto e Ressuscitado, e eis a verdadeira Páscoa. Voltemos a orar assiduamente, a dedicar ao menos 15 minutos de silencio diário aquele que anima a nossa vida e travarmos um relacionamento pessoal com Ele.

Não há desculpa, pois há tempo para isso. No começo, pode ser difícil, mas "o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza". Participemos, pelo menos aos Domingos da Santa Missa, porque esse é o Dia da Ressurreição, "Dia que o Senhor fez para nos", e lá ofereçamos o fruto de nossas mãos, sobretudo o fruto que Deus entrega na Cruz, e dele recebamos, confessados sacramentalmente os pecados, a vida eterna
em cada comunhão, que nos fortalecerá na caminhada semanal.

Deus quer participar de nossa vida; participemos da vida de Deus, e, assim, será gerada a comunhão e a paz. Deus e homem numa só realidade, como no Cristo. Ele por essência; nós porque Deus nos ama e se dá a nós gratuitamente, e nos quer felizes, pois "a glória de Deus é o homem vivo".

A vida eterna nos é dada diariamente, e diariamente podemos acolhê-la ou negá-la. Acolhamo-na e haverá esperança. Vivamos normalmente no nosso hoje, sempre com os olhos na Ressurreição de Cristo, que é nossa Ressurreição, hoje apenas em primícias na fé, e no Último Dia em plenitude, no próprio Cristo.

A ele sejam dadas a gloria e o poder em cada um de nos, hoje e na eternidade, pelos séculos dos séculos. Amém!

terça-feira, 11 de maio de 2010

“Não vos alegreis pelos milagres que fazeis, mas por vossos nomes estarem escritos no céu.”

De fato, nosso Deus não prometeu riquezas, nem sucesso, nem poder, nem um mundo a nossos pés. E, ao olharmos para Jesus, vemos um homem “pobre, humilde e crucificado”, como dizia São Francisco. De fato, “os pássaros têm os seus ninhos, e as raposas têm as suas tocas, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. O Filho do Homem é continuamente provado e marcado pela perseguição, entretanto em profunda paz, porque “vem do Pai e volta para ele”. Quanto às dificuldades e perseguições, inevitáveis para quem desperta, dom para aumentar a confiança, não são fáceis de agüentar, nem para mim que escrevo nem para vocês que lêem. Depois que o Gabriel morreu, encarar um Deus que não nos livra de dificuldades tem trazido um certo sentido a tudo. Não é fácil, repito, mas, aos poucos, vai nos libertando de certas ilusões.


O fato de sermos contingentes tem um papel fundamental na nossa vida: fazer anamnese de nossa humanidade. Primeiro, permitam-me lembrar da etimologia de humanidade. Há, no latim, um termo comum, humus, que lembra terra. Paulo, na Carta aos Filipenses, ao dizer que Cristo se humilhou, quer lembrar de muito mais do que uma depreciação moral; quer-nos lembrar de sua visita às profundezas de nossa terra. Húmus, que nos lembra terra, também nos lembra homo, o homo sapiens et demens, nossa espécie. Lembra-nos a humildade e a humilhação. Além disso, em hebraico, o nome dado ao homem foi Adão, ou Adhamar, o terroso, aquele que se fragiliza ao se expor às diversas intempéries, que se descaracteriza ao entrarem em tensão suas forças internas repulsivas, mas que pode ser moldado ao receber a água e o sopro.

A água nos lembra tempestades, maremotos, afogamentos. A água nos lembra a chuva, a bebida que mata nossa sede, o líquido de limpeza. A água é um dos quatro elementos alquímicos utilizados nas antigas tradições, de modo particular em rituais de iniciação. É assim que a água foi usada no nosso Batismo. Os discípulos tiveram medo das águas, quando, no Mar da Galiléia, estiveram sob a tempestade, sentindo-se ameaçados. Não era à toa. As antigas tradições mitológicas hebraicas associavam à água a presença de Leviatã, um monstro marinho. A tempestade do Mar da Galiléia quis ser uma interpelação à fé dos discípulos, a qual foi observada por Jesus naquela ocasião. Mas as águas também foram entendidas como símbolo das profundezas interiores, tenebrosas e assustadoras. Mergulhar nas águas, como na simbologia batismal nos lembra entrar nessas profundezas, harmonizando as polaridades e as dicotomias interiores. Dizia, ainda, um Padre do Deserto, que, “de nada vale o Batismo nas águas quando não se realiza o batismo das lágrimas”. As lágrimas são uma solução fisiológica, portanto predominantemente composta de água, e simbolizam a entrada em nossa interioridade, rumo a libertação da mesma. O Batismo na água aconteceu, no começo. E não somente na água, mas também no Espírito (pneuma = sopro). O Batismo das lágrimas se encerram no dia de nossa morte.

Diz o salmista: “levantaram as torrentes sua voz, levantaram as torrentes seu fragor; muito mais que o fragor das grandes águas, poderoso é o Senhor nos altos céus” (Sl 93). Maremotos que invadem nossa vida querem fazer despertar o nosso húmus, a nossa proveniência da terra, ou seja, nossa fragilidade, mas será o ponto de partida da descoberta e do encontro com O que habita o mais profundo de nós mesmos: mais poderoso do que as águas. Nesse momento, o homem começa a ser moldado e pode se encontrar com a sua identidade verdadeira.

Esse foi o caminho daquele que se reconheceu Filho do Homem. Mesmo sabendo que não havia para um filho de homem uma vida fácil e segura, amou ser homem como nós, amou ser terroso. A Quaresma quis ser para os cristãos, nesses quarenta dias que se encerram na tarde da próxima Quinta-feira Santa, (como o Ramadã para os muçulmanos, ou o Yom Kippur, para os judeus, bem como os períodos de penitência e sobriedade de outras tradições), um tempo de amar o terroso que somos, amar o terroso que o outro é, amar o terroso onde a Realidade Suprema quis habitar; um tempo de nos deixar atrair por esta Realidade, justamente de onde ela se encontra, no Filho do Homem, passando (Pesach = Páscoa) do homem de mentira para o homem de verdade, da máscara para o rosto, da dispersão para a unidade, do pecado para a graça, do egoísmo para a gratuidade, do mundo para Deus. As águas, como a cruz, já não mais serão uma grave ameaça, mas o caminho aberto para a realização de um interior frustrado com contínuas ilusões, para o encontro como os traumas da humanidade ferida, que tanto necessita de amor e realização, num mundo onde a tecnologia, a pressa, as aparências, o dinheiro e o poder falam tão alto, mas um coração, um centro de vida foi esquecido, dando margens ao surgimento de uma letargia, uma normose, o reino da mediocridade.

Um coração foi esquecido. Mas está aí nas águas, escondido no subsolo marinho de nosso Adão. Vamos ao encontro dele?

A Páscoa que surpreende - comentário a At 16,22-24, texto da liturgia de hoje

Essa passagem arquetípica dos Atos dos Apóstolos é uma entre tantas através da qual a Liturgia vem nos motivar a refletir acerca da bondade incondicionada do Pai. O mais interessante é que os fatos dessa perícope o fazem através de situações aparentemente calamitosas e contraditórias.
Primeiro, com Paulo e Silas, esses dois intrépidos missionários. Tendo entrado na Europa, também aí sofrem a rejeição por causa do Reino de Deus, pois é um reino que incomoda, desaloja, desafia nossa mediocridade. As injustiças que sofrem fazem parte da reação que as frustrações ferventes de seus opositores promovem: são corações perturbados, que perturbam tudo ao redor. Ordem, para eles, é o “status quo” que compensa os desequilíbrios interiores que os levam a ser sedentos de poder e “donos da vida”.

Mas o que, me chamou a atenção nesse texto foi o que aconteceu com o carcereiro. Antes de mais, o que é um carcereiro? É um homem pago para garantir que presos não irão fugir. Na sociedade, seu papel é importante porque há uma necessidade remediativa acerca de pessoas envolvidas com o crime. Os carcereiros são pessoas importantes no que concerne à garantia da ordem social. Este carcereiro, entretanto, tem o papel para manter aquela ordem do parágrafo acima. Ele é instrumento de manutenção de uma estrutura viciada. E sabe que, se não o for, poderá morrer, mesmo que seja de fome, por não ter mais o seu salário. Então, acontece o inesperado: um terremoto. Os alicerces da cadeia são abalados, as portas são abertas. O abalo dos alicerces faz-nos lembrar do abalo das bases sobre as quais nossa vida (inclusive a do carcereiro) é construída. Elas são vez por outra abaladas, sofrem avarias e acabam por ser fragilizadas, desembocando na necessidade de mudança de alicerces. Quando alicerces se abalam, as estruturas se modificam, e as portas já não se mantém fechadas. Pude presenciar isso num local onde os alicerces estavam cedendo e as portas já não fechavam. Que dizer de um local assim perante um terremoto? Portas abertas lembram-nos as portas do sheol, a mansão dos mortos, abertas pelo mistério pascal de Cristo; lembram-nos o dia de nosso Batismo, em que entramos na Igreja pela porta, simbolizando as portas do Reino dos Céus, que nos foram abertas por esse mesmo mistério. Na realidade, um terremoto ocorreu na vida desse carcereiro. Tudo virou de cabeça para baixo. Poderia ter insistido em se matar, fruto de sua mediocridade, a não elevação de seus olhos para uma Realidade maior, uma águia que vive como galinha. Fenderam-se as estruturas de sua existência.


Entretanto, ao ouvir a voz consoladora de Paulo, ele se ajoelha aos seus pés, perguntando “que devo fazer para ser salvo?” Normalmente, queremos salvar a nossa pele, segundo a lógica voluntariamente aceita em nossa história. Mas Paulo lembra da família dele: “crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua família”. Paulo lembra de que não nos salvamos sozinhos. E a salvação desse homem não necessariamente corresponderá ao fato de se safar perante os magistrados de Filipos, mas de poder encontrar um horizonte infinitamente mais amplo para a sua existência; o quem sabe um alicerce firme diante das tempestades e tremores da vida, a “pedra angular” de sua vida.

Mas, uma questão ainda: quem estava preso? Os discípulos ou o carcereiro? Os discípulos cantam hinos, enquanto o carcereiro dorme; os discípulos permanecem em seu lugar, aparentemente tranqüilos, enquanto o carcereiro tenta se matar diante da intempérie. Enfim, para quem as portas se abriram?
Resposta a isso pode ser encontrada nos versículos abaixo, em que o carcereiro vai escutar a Palavra e cuidar daqueles que, em nome do Nome e do Reino, encontram-se espezinhados pelo sistema. O carcereiro se liberta da lógica antiga, do homem velho. Ele é batizado e oferece uma refeição (símbolo da Eucaristia) para saciar a todos os que se encontram famintos, ou seja, todos os personagens da situação. Aí, já não há carcereiros nem encarcerados. A partir daí, os papéis passados já assumem um referencial diferente, de tal maneira a se manifestarem inversos.

“Alegrou-se ele e sua casa porque creu em Deus.” De fato, quando nosso horizonte se abre à Eternidade, surge a alegria de Ser. Há a descoberta de não sermos mais tão somente filhos do pai ou da mãe, filhos do sistema, filhos da culpa, filhos da escravidão, filhos do cárcere, filhos de genes diferenciados, filhos do nosso temperamento ou dos hormônios que estão em constante transporte em nosso organismo ou ainda filhos da cidade, do campo, do oriente ou do ocidente, mas unicamente da Vida, em seu desejo por si mesma, ou em outras palavras, de Deus mesmo, do que transcende, do que ultrapassa, do Sempre Mais. Talvez tenhamos tudo isso, mas não para sermos vítimas do sistema, da culpa, da escravidão, do cárcere ou do que quer que seja, mas para redimir tudo isso.

É a Páscoa! Passagem da sujeição à libertação.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Grande notícia! Que alegria!

Meus caros,

não posso deixar de transmitir a alegria em perceber a vivacidade de nossas irmãs beneditinas do Mosteiro São João, de Campos do Jordão. Ressoam aos meus sentidos as palavras da I Leitura da Missa de ontem, quando Paulo e Barnabé atravessavam os territórios vastos da Ásia Menor por imenso amor e gratidão Cristo, anunciando no meio do mundo, de um mundo por vezes desconhecido e hostil o Evangelho do Senhor. Isso é a Igreja, sua única força é o Espírito Santo, seu único atrator, Cristo.

As sempre amadas e referidas irmãs aceitaram a missão de ir a terras longínquas, a Aasebaken, Dinamarca, para fazer com que o canto a Deus não cesse por aquelas terras, que já se esquecem de quem é Cristo, dos sinais de eternidade e caridade de Deus, da beleza sempre antiga e sempre nova. É que nos relata a revista "Isto é", na edição do último dia 23, sábado, e que pode ser aberto no link:


É comovente ver esse exemplo e testemunho de amor a Cristo. Exigirá tanto delas... Outras terras, uma língua estranha, um país hostil aos cristãos... Somente o olhar fixo em Jesus, nosso Deus e Cristo, somente um olhar que não cesse de se dirigir a ele, mesmo entre lágrimas, mesmo na saudade, na provação, na estranheza, somente isso poderá sustentá-las. Somente isso, meus caros, tenham certeza, irá nos sustentar no meio do deserto, e nos mares revoltos dessa vida.

Revma. Me. Abadessa Myriam, receba minhas estimas, a minha alegria, a minha comoção e as minhas preces por essas benditas irmãs, que deixaram mais do que o tudo que houveram deixado antes, para seguir o seu Senhor e Esposo, onde quer que Ele lhes chamasse. Ele mesmo disse que chamaria sua Esposa ao deserto. As lâmpadas continuam acesas no último mosteiro aberto da Dinamarca porque elas o seguiram. Tenha a serena certeza de que Ele não as deixará, nem deixará esta próspera comunidade de Campos do Jordão, nem mesmo as mais enfermas.

Receba ainda meus parabéns, porque sua comunidade está, no silêncio, na contemplação e no louvor divino, mostrando ao mundo inteiro o que é o cristianismo, o que é o catolicismo, o que é a Igreja. Que boa notícia em meio aos vendavais, que são desnorteantes para tantos!!!

A todos que recebem esta mensagem, meu cordial abraço e o desejo de uma boa semana!

Na Páscoa do Bom Pastor, a Porta das Ovelhas se abre!

Lá pelos idos da meia-noite de Sábado Santo para Domingo da Ressurreição, os cristãos se erguem em canto alegre e solene porque no meio da noite escura, aquela que representa a morte, a destruição, a falta de sentido, o desencanto, brilha a luz. Ninguém sabe como foi que aconteceu, é Mistério de Deus. Diz o Precônio Pascal: “só tu, ó noite, conheces a hora em que Cristo da morte ressurgia.” Somente a escuridão, o mistério da falibilidade de nossas luzes, nosso pranto, nossa entrada na sepultura, nossas dilacerações interiores podem conhecer de modo incompreensível aquela alegria que o mundo não pode oferecer nem retirar. A Páscoa é isso: Cristo vai até as profundezas da morte para que a realidade do Espírito Santo, aquela que só pertence a Deus, possa ser copiosamente derramada nos corações humanos, porque aí, justamente aí, a morte já não é mais morte, mas lugar onde Deus é tudo em nós e em todos.



Muitas vezes, sobretudo para o mundo de hoje, as experiências mais dilacerantes do homem são a doença, a pobreza, a morte. Entretanto, diria que há algo pior, que está por detrás de todas essas manifestações de nossa fraqueza. É a solidão. Não falo da solidão comum, de não estarmos acompanhados de outras pessoas. Se essa solidão for permeada de amor, ela já não será mais solidão. Falo de uma solidão interior, ontológica, aquela condição em que o homem parece abandonado à sua própria sorte. Seu destino parece irremediável e seu fim é a destruição, o vazio, o esquecimento, o aniquilamento total de sua história e de seu ser. Uma trajetória assim só pode ser razão de desespero. Vejamos o nosso mundo e o nosso tempo. Estaremos a celebrar a Páscoa e por ela somos chamados a vencer o desespero. Porém, o mundo continuará a sua história de desespero. O absurdo continuará a acontecer. E o pior é que o absurdo se revestirá de ciência, de direitos humanos, de justiça, de segurança e de paz. Hoje não temos uma humanidade de 6 bihões de pessoas, mas 6 bilhões de indivíduos sozinhos, destinados a se perderem para sempre...



Senhor, abre-nos a porta. Se estamos confinados às portas da morte e do inferno, arromba-as. Nossos antepassados diziam que o “Senhor arrombou portas de bronze e despedaçou ferrolhos de ferro” (Sl 106,16). Nós acreditamos neles, porque experimentaram a verdadeira liberdade ante o absurdo. Acreditamos neles porque encontramos neles a alegria de quem superou aquela solidão essencial. Acreditamos neles porque a eles não faltou no olhar, nos gestos, nas palavras, nos pensamentos aquele brilho que não cessava de transmitir um algo mais humano, onde podíamos vislumbrar algo de perene e eterno.



Senhor, abre-nos a porta. Dissestes que se não cessássemos de bater, de insistir, a porta seria aberta. “Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e a quem bate, a porta lhe será aberta”. De fato, se os homens, em sua maldade, em sua parcialidade, são capazes de dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o “Pai do céu não dará o Espírito Santo aquele que lho suplica”. Abre-nos a porta. Sopra sobre nós o teu Espírito.



Senhor, abre-nos a porta. Não digas, suplicamos, que não nos conheces. Abre-nos a porta, porque nos sondas e conheces, sabes quando deitamos e levantamos, sondas os nossos pensamentos. Abre-nos a porta, porque no nosso abandono, tudo é frio, sem sentido, morto. Se as portas se fecham, não temos mais razões para viver e levar adiante o dom que tu mesmo nos deste.



Senhor, abre-nos a porta. Tu mesmo disseste: “eu sou a porta das ovelhas”. Em Jerusalém, havia uma “Porta das Ovelhas” ao lado da qual ficava a piscina de Betesda (cf. Jo 5) .Ali, conheceste um aleijado, que nunca conseguia chegar na piscina a tempo de conseguir a cura àquele que chegasse nela primeiro logo após ser agitada por um anjo. Quando tu o olhaste, deste a ele a cura, o bem e a possibilidade de louvar a Deus. Fizeste Páscoa na vida dele. Passaste na vida dele e ele passou da morte para a vida. Tens razão em dizer que és a Porta das Ovelhas (cf. Jo 10,7), porque aí se encontra a verdadeira piscina de Betesda, onde nos encaminhais para águas repousantes e restaurais nossas forças. Prometestes que ao entrar por essa porta seríamos salvos, diferente daquela porta onde estávamos trancafiados, presos, com um destino triste e irremediável. Em ti, somos batizados, lavados, purificados. Em ti, vemos a luz, somos iluminados e somos luz.



Sim, Senhor, abre-nos a porta! Que uma nova criação se abra ao nosso olhar! Que a percebamos muito mais do que quando Adão abriu os olhos e viu uma maravilha ao seu redor; muito mais do que quando Abraão viu o vosso dia, na ocasião em que percebeu que não precisaria mais sacrificar seu filho Isaac; muito mais do que quando maravilhas realizastes em favor de vosso povo no Mar Vermelho, quando rasgaste as águas e passaram a pé enxuto; muito mais do que quando deste com carinho e gratuidade o puro leite aos filhos de Israel que retornavam do exílio e mesmo quando o desposaste de novo e nele puseste o diadema; muito mais do que quando prometeste aquela água pura, porque agora em ti mesmo podemos ser purificados. Pois nosso coração se alegra, nosso coração já vê de alguma forma a luz em meio à falta de sentido, nosso coração se enche do sentido do Eterno. Sim, quem está em ti é, assim, uma nova criatura. Não somente vê as maravilhas de uma nova criação fora de si, mas sobretudo em si, porque foi revestida de Cristo: tendo experimentado a morte, ressuscitou contigo.



Sim, Senhor, abre-nos a porta da eternidade!

“... Ressurgiu minha esperança ...” (Seqüência de Páscoa - séc. XI)

Gostaria de já ter enviado essa mensagem a todos vocês, trazendo a boa nova da paz, já na Semana Santa, mas não foi possível. De qualquer maneira, como a Páscoa apenas começou no Domingo da Ressurreição (4 de abril) e segue até o Domingo de Pentecostes (esse ano, 23 de maio), esta hora, este momento ainda é muito propício para desejar a todos uma Feliz e Santa Páscoa.
Para o comércio, entretanto, para a mídia e para quem não sabe o que está celebrando, a Páscoa já acabou. Mas a Páscoa é um acontecimento tão grandioso, tão sublime, tão estupendo, tão além das nossas concepções, que não tem como ser vivida em um dia apenas. Precisa ser ruminada, saboreada, apreciada, contemplada. Nosso mundo é um mundo de alienação dos sentidos. Come-se, bebe-se, transa-se, cumprimenta-se, cala-se, fala-se, diverte-se, trabalha-se, até mesmo se reza, sem se saber o motivo e o sentido profundo de cada realidade. De que nos falam, a que nos motivam? Tudo é banal. “Tudo é vaidade” (cf. Ecl 1,1). Na realidade, já se tem uma profunda alienação do próprio homem. Que dizer, então, com relação a Deus e à espiritualidade?
Há muitas visões acerca desse Deus tão falado e tão pouco conhecido. Esse Deus enviou seu Filho, do qual fala o Evangelho de João, escutado no dia de Natal: “No princípio era o Verbo; o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). Atenção aos dualistas: carne, dentro da cultura de João, significa o homem todo em sua fragilidade, e não apenas corpo material, como alguns poderiam pensar. Assim, o texto diz que o Filho de Deus, Filho na essência, gerado eterna e misteriosamente de Deus Pai, tão Deus quanto Ele, mas gerado, tendo o Pai como fonte de sua pessoa (Filho, portanto), se fez homem. Não brincou de ser, nem fez de conta que foi homem, em tudo: no choro de bebê nos braços da Virgem Maria, na pobreza, nas suas andanças em busca de trabalho junto com José, no conhecimento da oração e da Palavra de Deus, na sua exultação por ser aos simples reservada a verdadeira alegria, na sua proximidade com os homens, fazendo-lhes o bem e curando a todos os dominados pelo mal (abriu os olhos aos cegos, libertou os cativos de suas prisões, fez surdos ouvirem e mudos falarem, deu sentido à vida de muitos, fez coxos andarem, revivificou mortos), assumindo seu papel na sociedade de seu tempo (denunciou as injustiças, de modo particular a falsa religiosidade dos líderes religiosos), chorou, sofreu a dor da traição, do abandono, morreu vergonhosamente. A única realidade não vivida de per si foi o pecado, alienação de Deus. Sim, pois seu alimento era fazer a vontade do Pai. Entretanto, tendo entrado profundamente na realidade humana, assumiu em si as dores desta realidade, desde o choro de bebê, até a morte. Kenosis é a palavra que resume tudo isso (cf. Fl 2, 6-11), ou seja, total humilhação de sua condição divina, no ocultamento sob a condição humana. Mas foi assim, esquecendo-se de si, que deu a verdadeira consolação a todos os que dela necessitavam, porque sentiam o peso de ser gente. Jesus experimentou essa carga inteirinha porque não veio para ser servido, mas para servir e entregar a sua vida por causa de muitos. Esse gesto foi profundamente simbolizado no lava-pés (cf. Jo 13, 1-15), na ocasião em que instituíra a Eucaristia (i.e. Missa), sacramento de sua entrega por causa de nós, a mesma entrega que fez de toda a sua vida e de todo o seu tempo para simplesmente amar e servir. Ali temos realizado continuamente esse grande mistério.
Mas não se esgota aí. Jesus morreu, de fato. Mas o que significa isso. Esse gesto de profundo serviço (lavou os pés de toda a humanidade) e de infinito amor (entregou a sua vida por causa de muitos) foi um tanto que banalizado e, por Jesus ser Deus, não se esgota no fato de simplesmente terem se esgotado suas funções vitais. A morte de Jesus é o momento em que ele entrega seu Espírito ao Pai (cf. Lc 23, 46; Jo 19, 30). O que ou quem é o Espírito?
O Espírito é o vínculo que une o Pai ao Filho. É por onde o Pai gera o Filho, por onde o Filho jamais se vê dissociado do Pai, nem o Pai do Filho. O Espírito é o ambiente em que o Pai é Pai, e o Filho é Filho. Segundo outras comparações, é como que o útero de Deus, onde eternamente o Pai gera o Filho. E, no Espírito, o Pai só é Pai porque gera, e é a única coisa que sabe fazer, o resto é conseqüência; e o Filho só é Filho porque é gerado, se deixa envolver pelo Pai, se alegra com o que ouve e recebe do Pai e se alimenta de realizar a sua obra. Só Jesus é Filho por essência e excelência. Fora disso, o Pai, o Filho e o Espírito perdem sua identidade.
O que chama a atenção nessa visão trinitária de Deus é que em todas as pessoas divinas circula uma só realidade: a doação de si - o amor. O Pai se dá ao Filho, e o Filho se dá ao Pai; o Espírito é a entrega de cada um, conforme a Igreja professa: “creio no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho” (Credo Niceno-constantinopolitano). Por isso, João pode dizer: “Deus é amor” (1Jo 4,16). Quando Jesus morre (= entrega seu Espírito), Jesus assume a condição dos sem Deus, dos pecadores, já que o pecado é essa alienação de Deus. Mas isso é uma ruptura. Será possível? O amor foi até o absurdo de amar? Sim, é por isso que João diz: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Mas será que esse amor é capaz de ir até o absurdo: uma morte em Deus? Não uma morte de Deus, mas em Deus, Porque o vínculo do Pai e do Filho já não estava mais com o Filho, e o Filho já não parecia mais Filho. Também desse modo, que dizer do Pai? Como pode, tal desolação ocorrer no seio do próprio Deus? Quando Jesus se tornou o último de todos, o pecado do mundo (o meu, o seu, o de todos) marcou as próprias relações em Deus. Que mistério!
No entanto, Deus é amor e não pode negar sua paternidade. O Pai não se cansa de gerar, o Pai faz de tudo para estar em profunda relação com o Filho. Quem ama, diz: “quero que vivas”. Pense num parente amado que já partiu e qual foi a sua sensação. Só que você não pode trazê-lo de volta. Deus pode infinitamente mais pelo Filho. Não se cansa de gerar. Infunde seu Espírito no Filho para que ressuscite, não mais com uma vida perecível, mas com uma vida que não possa sofrer mais as conseqüências da fragilidade humana, uma vida na qual só a voz de Deus fala: “vive”. E Deus fala isso eternamente ao seu Filho. Sim, o Filho foi ressuscitado dos mortos. Era o ponto fraco de Deus: ele queria sempre ser chamado de Papai. Mas como o Filho veio ao encontro do último de todos os homens, ele, na companhia do Filho, ressuscitou também. Deus quis ser chamado de Papai, por esse também. Esse sou eu, é você, todos os que, batizados, ou seja, mergulhados nas águas da Morte e Ressurreição de Cristo, podem chamar a Deus de Pai, e, não-batizados, têm uma abertura para uma nova relação com o Deus vivo.
“Ó Deus, quão estupenda caridade vemos no vosso gesto fulgurar: não hesitais em dar o próprio Filho, para a culpa dos servos resgatar!” (Precônio Pascal)
Somos felizes, porque, órfãos neste mundo, temos um Pai eterno, que nos ama assim: de uma maneira que ninguém é capaz de nos amar, entregando sua única riqueza por nós. Este é o sentido da Páscoa: o Pai de Cristo se tornou nosso Pai; o Deus de Cristo se tornou nosso Deus. Ele nos gerou. Medite sobre isto, porque este ó sentido da Páscoa da Morte e Ressurreição de Cristo Jesus. A ele, a glória, pelos séculos. Amém!
E assim, neste sentido, reitero meu desejo de uma Feliz e Santa Páscoa para todos vocês.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

São José e a Justiça que nos visita

Hoje, no segundo dia da Semana Santa do Natal, senti-me impelido a fazê-lo. Isso aconteceu contemplando as leituras da liturgia de hoje, onde Jeremias Profeta prenuncia os dias em que Deus faria brotar de Davi um rebento justo, uma descendência, que governaria com sabedoria e exerceria o direito e a justiça em Israel (Jr 23,5), mais o acontecimento do anúncio do anjo do Senhor a São José (Mt 1,18-24). Esta última leitura é repetida com a genealogia de Jesus, na Vigília de Natal.
 
O que significa tudo isso?
 
O evangelista Mateus diz que José era um homem justo. O que é um justo, na mentalidade judaica? É um homem temente a Deus, um homem que leva Deus como referência de vida, sua Lei, seu culto, sua maneira de se manifestar na história. Um homem justo é, numa palavra, o homem que tem fé, o crente. Por isso se diz que José era justo. Acontece, porém, uma situação inusitada e inquietante: aquela que lhe estava prometida em casamento aparece grávida. Apenas um outro evangelista, Lucas, dá-se o trabalho de dizer como Maria ficou grávida (quando o Arcanjo Gabriel lhe apareceu e lhe anunciou o sonho de Deus, para o qual ela disse seu “sim”). Mateus laconicamente resume o fato como “tendo concebido do Espírito Santo”. Mateus, como bom autor de um evangelho dirigido a cristãos vindos do judaísmo, descreve a genealogia do Cristo e realça apenas o drama ocorrido com o pai. De fato, haveria de se explicar o inaudito fato àquela sociedade patriarcal.
 
Que coisa! Não é fácil. Prometida em casamento, engravida sem ter sido tocada por José. O justo poderia apelar para a Lei: poderia denunciá-la de adultério, e ela, sofrer a pena de lapidação. Porém, o justo não esquece o provérbio que lembra que “o justo precisa ser humano”, e não denuncia Maria, mas decide ir embora, assumindo ele mesmo a condenação perante a sociedade, de ter engravidado uma mulher e ter fugido como um covarde, sem, no entanto, tê-lo sido. A José, a Lei oferecia um recurso, e certamente, seu título de justo não seria retirado; o amor a Maria ofereceria um outro recurso que lhe pouparia.
 
Mas há um outro olhar que pode ser lançado sobre tudo isso. Anjos agem na vida dos homens quando Deus lhes deseja comunicar algo muito importante. De modo particular, os arcanjos vêm em socorro da humanidade para oferecer sublimes e indispensáveis dons da graça divina. Ali estava o coração de um justo apertado, sufocado, angustiado. Ali estava um homem em prantos. Os demônios conseguem manipular até a realidade do justo, usando das armas da própria justiça e até mesmo do amor humano para desviar a atenção do plano de Deus, plano que corresponde à Realidade por excelência.
 
O ícone de Natal apresenta um José pensativo, desanimado, olhando para um ente esquisito, que está de costas para quem observa a obra. Esse ente é o inimigo de Deus. Cabe lembrar que todos nos viciamos em carregar o vencido inimigo de Deus dentro de nós, e daquilo que sofreu José sofremos também nós em nossas tentações e aflições. São as amarguras, o desânimo, a cólera e todas aquelas coisas que nos afastam de Deus e de nós mesmos. E ainda contamos com instrumentos legítimos para consolidar e validar nossa justiça.
 
Olhando para José, lembramos de que o anjo lhe foi em socorro em sonho. O pedido do anjo em acolher aquela que continuava Virgem ecoa como um pedido a José para ser mais do que justo, enlarguecer os limites da própria justiça, dilatar o coração. De fato, o Salmo 118,26 diz: "de vossos mandamentos corro a estrada, porque vós me dilatais o coração". A justiça de que se trata agora não é mais a justiça que os homens reconhecem como tal, mas a justiça de Deus, a justiça prometida pelos profetas, quando do Dia da vinda do Santo Messias. Ele mesmo, o Messias, disse: "se a vossa justiça não for maior do que a justiça dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus".
 
Aí, está, pois, a justiça. Não basta ao justo ser justo; não basta ao justo ser humano. Ele precisa ser tudo isso, mas precisa de algo mais para ser pleno: ele precisa de um olhar teologal, pneumatikon, espiritual. O justo, nesse novo e inaudito sentido, é aquele que olha segundo Deus, para além das prescrições e julgamentos humanos. É aquilo que muitos já denominaram de “ter espírito religioso”, o senso de que Deus é livre, de que age como quer, de que todas as leis naturais e humanas estão inscritas numa lei transcendente, misteriosa, que não conhecemos, ao menos por inteiro, coisa que em nossos tempos não está em moda.
 
Olhemos, agora, mais atentamente para essa silenciosa figura do presépio: José. Como bom judeu, conheceu as Escrituras da Lei e dos Profetas. Entre tantas outras passagens, destacamos a que foi I Leitura hoje: “virão dias em que Deus fará brotar de Davi um rebento justo”. Será que José lembrou dessa profecia? Será que lembrou de todas as outras? Certamente. Mas o que era José, da já tão esquecida e vilipendiada casa de Davi, diante da grandiosidade dos planos de Deus? Afinal de contas, a casa de Davi tinha deixado destruir tudo o que Deus oferecera a seu povo. Israel sofreu pilhagem após pilhagem, e a casa de Davi, outrora tronco forte, agora não era mais do que um rebento, um raminho, um galhinho fininho de árvore. Para José, acordado do sonho, vale a pergunta: “será que é comigo?” Caro amigo e leitos, quantas vezes a Palavra de Deus não terá sido dirigida a você, e você se fez essa pergunta?
 
Os profetas anunciaram que coisas inauditas aconteceriam no Dia da Vinda do Messias. Joel diz que o sol perderia seu brilho, a lua se transformaria em sangue, os anciãos teriam sonhos, os jovens teriam visões. E mais, Deus prometeu à Casa de Davi uma descendência em várias passagens da Escritura: os escritos dos Livros dos Reis e das Crônicas, os escritos proféticos de Isaías e Jeremias, os Salmos 71, 88 e 131, enfim tudo apontava para isso. E José era da casa de Davi. Somente um único aspecto não lhe faz entender como isso seria com ele: ele não tocou em Maria. A própria Virgem pergunta ao Arcanjo Gabriel: “como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” Conhecer, no sentido conjugal, segundo a tradução hebraica, é ter relações sexuais. Como acontecerá isso?
 
Meus caros, aqui é preciso ter fé. José teve a fé. De que fé estamos falando? Fé em Deus, mas não em qualquer Deus , não em um ente que moldamos a nosso modo. Trata-se da fé num Deus livre, que, como diz o Salmo 113, “faz tudo aquilo que quer”. Deus é Alguém, Alguém com vontade, com inteligência, com coração, que dispõe da realidade conforme seu desígnio a habilita, inclusive dando condição para que surjam as leis naturais que estudamos e das quais desfrutamos para nosso bem (e também para o nosso mal).
 
Certas horas da vida, nas demoras de Deus, nas aparentes sensações de falta de existência de Deus, de vazio de Deus, meu caro irmão, minha cara irmã, tenha a certeza que é Ele mesmo que nos faz o apelo para que descubramos uma virtude maior em nosso Deus. Ele é livre, mais livre do que eu penso, mais livre do que eu, e me leva a uma liberdade ainda maior, se eu souber silenciar diante de tudo aquilo que é Mistério e que leva, assim mesmo, mesmo desafiando o que é facilmente demonstrável ou sensível, a se cumprir seu eterno plano de amor.
 
Se eu estiver disposto a dar o salto que essa fé pede de mim, se eu tiver a coragem de apostar na Verdade que se nos apresenta, embora nossa rigidez racionalista e sentimentalista apresentem mil ilusões, poderei dar mais um passo em direção ao seu Reino.
 
Se eu souber silenciar as vozes pululantes do coração perturbado e amansar a fera que se acha tão justa e tão boa dentro de mim, descobrirei que não sou justo nem bom, enquanto não conseguir olhar para além do palpável.
 
Caro irmão, cara irmã, tenha a certeza! Se tudo isso acontecer em nossa vida, Deus se tornará palpável, visível, audível. Se assim já se faz, pela potestade da Igreja, que sacramentaliza essa realidade, através dos sacramentos, far-se-á em nós. Misteriosamente , Deus se revelará a nós. De fato, Ele assume a liberdade de se revelar a quem quer, mas ao coração daquele que só deseja o que Ele deseja – tenha a certeza –, Deus se inclina de uma maneira inaudita.
 
Quantas lições o silêncio de José nos traz! Que belo é o olhar daquele que não deu uma única palavra verbalmente, mas ao ouvir a palavra por meio do anjo, permitiu que a Palavra, o Verbo, a Razão de Deus se fizesse palpável, na sua Encarnação no ventre de Maria Virgem!
 
Ruperto de Deutz, no século XII, chegou a escrever: “o que prefigura essa escada” – a escada de um outro sonho, o de Jacó – , “senão a linhagem da qual Jesus deveria nascer, linhagem que o santo evangelista, com um sopro divino, faz subir, de maneira que chegasse a Jesus passando por José? E a este José o Senhor confiou o Menino. Pela «Porta do Céu» (Gn 28,17)[...], quer dizer, pela bem-aventurada Virgem, sai Nosso senhor a chorar, feito criança por nós.”
 
Contemplamos, com o sim de José, o presépio. O menino que vai nascer é Deus, mas é menino, Filho do Homem, título que repetiu tantas vezes com relação a Si próprio. Vem pequeno, vem criança, para que, como crianças, aprendamos com Ele a sermos o que nós somos nEle.
 
Gostaria de terminar este texto repetindo uma bela e significativa frase de Ângelus Silesius, místico da Idade Média: “nasça Cristo mil vezes em Belém; se não nascer em teu coração, de nada te adiantou ter Ele nascido, terás vivido em vão!”
 
Olhemos para o Presépio, olhemos para José, para o Menino. Olhemos para nós, para o nosso coração, para a nossa vida! Seja ela o presépio, onde contemplamos o milagre da encarnação do Verbo de Deus acontecendo em cada momento, em cada simples e pequeno instante. Eis o que seja a sublimidade da verdadeira vida, que se completa, no Dia Final, quando Ele for tudo em todos. A Ele a glória para sempre. Amém!

A todos que acompanham este humilde espaço eletrônico, desejo, de coração, um Feliz e Santo Natal, pleno do Cristo, Nosso Senhor!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Reaprender a respirar a vida, a mastigá-la, degustá-la...

Hoje em dia faz-se por vezes necessário, pois se está muito sujeito a esquecer de que somos humanos, esquecer de que nossos anseios mais profundos estão aí e não nos deixam em paz enquanto não nos pusermos a escutá-los.

Hoje o homem sofre com um profundo desenraizamento e muitas vezes foge de um encontro que lhe devolva sua verdadeira identidade. É, de fato, um absurdo, mas isso só acontece quando um ser é estranho a si mesmo. É o dilema de um animal, como um gato que minha irmã teve que, ao ser posto diante de um espelho, se zangou da imagem que viu. Não obstante, isso seria ainda desejável ao homem. Na verdade, se o homem pudesse ao menos despertar algum sentimento, alguma reação diante de sua verdade, poderia ser um ponto de encontro com o Ser, mas, na realidade, ele o evita, num indiferentismo sem precedentes.

E pensar que trazemos uma riqueza grandiosa em nós... Em nosso corpo, em nossa vida trazemos uma potencialidade enorme. Todos as nossas células, tecidos, órgãos, funções vitais falam profundamente. Inicialmente, elas nos falam de nossas necessidades mais elementares, como é comum acontecer com uma criança. Depois, elas começam a se relacionar com desejos mais sofisticados, e a riqueza dos sentidos, mediante a função plástica de proteínas e vitaminas, o aumento da precisão da ação orgânica e a multiplicação das sinapses nervosas acaba por dar a aprender cada vez mais como satisfazer necessidades de maneira a que alcancemos aquilo que desejamos, mesmo quando essas coisas ainda não existem. Foi assim que se desenvolveu a ciência, a economia, a tecnologia, a cultura e as artes. É por ser um ser de desejo que o homem consegue construir a história.

A questão é: o que significa tudo isso? Podemos alçar vôos altíssimos, mergulhar as profundezas do mar e escavar as da terra, trabalhar em nanoescala, controlando as propriedades da natureza a nível de átomo, tanto quanto em exoescala, buscando informações acerca dos confins do universo, um universo que não se resume a longínquas distâncias sobre a superfície da terra, mas muito além de ambientes que são os mais diversos possíveis desta nossa casa comum.

Continua a pergunta: que significa isso? O homem nasce, cresce, estuda, casa-se, tem filhos... Ou pior do que isso, torna-se bandido, prostitui seu corpo, aborta crianças, corrompe a política e a economia. Em nosso tempo, descobriu-se uma linha tênue entre a vida ordenada e desordenada, e elas parecem mais irmãs gêmeas do que poderiam parecer ser.

Ajuda-nos, Senhor! “Que é o homem, para dele assim te lembrares e o tratares com tanto carinho?” Pois bem, o homem é esse curioso ser que faz a ponte entre o finito e o infinito, tão pequeno, tão suscetível, e tão igualmente capaz de ideais grandiosos... À tão inquietante pergunta acima, algumas pistas nos são dadas pelas Sagradas Escrituras: “imagem e semelhança de Deus”.

Mas o que isso quer dizer hoje, para uma geração que parece incapaz de Deus? Pode-se ainda dizer: “de que Deus?” Segue que grandiosos sinais nos são dados em coisas tão pequeninas, coisas que os cristãos contemplaram desde o começo: a água que bebemos, o alimento do corpo, as vestes que usamos, o trabalho realizado por nós, as pessoas com as quais convivemos, seja em família, seja entre amigos, seja em Igreja, seja em sociedade. Todos eles querem falar de algo mais. E sabem por quê?

Porque o Senhor, “aquele que vimos, com quem comemos e bebemos, aquele a quem ouvimos” tocou todas essas coisas, e, da maneira como as tratou, desvelou-lhes o verdadeiro valor. Sim, “aquele que nossas mãos apalparam”, como poderia dizer o Apóstolo São João, revelou-lhes o Reino, que estava ali, não de maneira distante ou externa, mas ali, neles.

Controversa é a passagem de Lucas evangelista em que Jesus diz o Reino estar em nós (Lc 17,21). Alguns dizem que está no meio de nós, entre nós, em nossa história, um Reino a se desvelar de tal maneira que a purificação de nossos diversos contextos possibilitaria sua visão. Mas, por exemplo, São Gregório de Nissa vai mais longe, a partir de seu contexto místico, capadócio: “ ‘o Reino de Deus está dentro de vós’. Disso aprendemos que por um coração feito puro (...) vemos em nossa própria beleza a imagem da deidade (...). Tu tens em ti a capacidade de ver Deus. Ele, que te formou, põe em teu ser um imenso poder. Quando Deus te criou, plantou em ti a imagem de sua perfeição, como a marca de um selo. Mas teu vagar obscureceu essa imagem. Tu és como uma moeda de metal: sobre o rosto a ferrugem desaparece. A moeda estava suja, mas agora reflete o brilho do sol e todo o brilho em sua volta. Como a moeda, a parte interna da personalidade, chamada ‘coração’ pelo nosso Mestre, uma vez livre da sujeira que escondia sua beleza, redescobrirá a primeira semelhança e será real... Assim, quando as pessoas olham para si, elas vêem nelas o Um que elas estão buscando. E esse é o júbilo que preencherá seus corações purificados”.

Pois bem, seja na história, seja em nossa vida, muito mais ainda em nosso interior, onde as interpelações externas diversas podem se tornar realidade e história para nós, a verdade é que tudo o que nos cerca e acontece é obra do Deus Eterno na história. É uma teofania, como se fosse a continuidade do mistério através do qual se encarnou, morreu e ressuscitou dentre os mortos. Quando a vida manifesta a sua face, essas coisas acontecem aí, e somente nosso alijamento, bem (ou mal) conhecido como pecado, torna-nos incapazes de percebe-lo.

Esse mistério acontece aqui! Sim, nas minhas lutas, vitórias, desavenças, desventuras, desencontros, proezas, objetivos alcançados. Eles falam de algo tão grande, que, em última análise, só podem remeter-se ao amor de Deus manifestado no mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por assim dizer, sem percebermos, Cristo celebra a Páscoa em nossa vida.

“Eles recordam vosso amor tão grandioso e exaltam, ó Senhor, vossa justiça!” (Sl 145,7). Quem recorda? Nosso corpo, nossos gestos. Muitas vezes, nosso inconsciente está tomado desses gestos. E sabem por quê? Porque eles remetem à Origem, que muitas vezes está fora de nossa percepção consciente. Quanto a isso, é natural. Cuidemos, entretanto, para que nossa inconsciência do Bem, do Bem que habita aí, onde estamos, não sufoque completamente a ação do bem em nossa vida, tornando-a sem sentido, e, quem sabe, desordenada.

Descansemos nEle, e no silêncio, percebamo-lo.